PSSD, PFS e PAS: como o alerta chegou à bula
O alerta de que um efeito colateral pode durar chega à bula quando notificações se acumulam e uma agência as analisa. Foi assim com PSSD, PFS e PAS.
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As bulas dos antidepressivos, da finasterida e da isotretinoína ganharam seus alertas quando as notificações se acumularam e uma agência reguladora as analisou. Hoje elas alertam que os problemas sexuais podem continuar depois que a pessoa para de tomar o remédio. São os alertas por trás da PSSD, da síndrome pós-finasterida (PFS) e da síndrome pós-Accutane (PAS).
As bulas só falam de sexo, mas essas doenças são mais do que isso. Os critérios propostos em 2022 (em inglês) descrevem, para a PSSD, uma mudança duradoura na sensibilidade genital, muitas vezes dormência, além de embotamento emocional, dificuldade de concentração e memória e mudanças em outros sentidos. Para a PFS, também listam dificuldade de concentração e memória e depressão.
Por trás de cada frase há um rastro de documentos com data, e ele começa com pessoas notificando o que aconteceu com elas.
A história em três linhas
- Em maio de 2019, a agência europeia de medicamentos analisou notificações, estudos e publicações em redes sociais e depois pediu um alerta para dez antidepressivos (EMA, em inglês).
- Em abril de 2024, a agência britânica de medicamentos anunciou um cartão para cada caixa de finasterida, depois que pacientes disseram que as pessoas não estavam sendo informadas dos riscos (MHRA, em inglês).
- Em junho de 2026, a agência de medicamentos dos EUA determinou que os fabricantes incluíssem na bula da isotretinoína os problemas sexuais que “podem continuar” (FDA, em inglês).
Imprensa: contact@sidefxhub.com
A entrevista de Sam mostra a lacuna que uma frase da bula pode deixar. Ele tomou finasterida para a queda de cabelo e leu que podiam aparecer problemas de ereção.
Falaram alguma coisa sobre eles durarem? “Nada permanente”, ele conta. A história dele está no nosso site, e é o tipo de relato que dá início ao processo descrito a seguir.
Como um efeito colateral chega à bula?
Tudo começa com uma notificação. Um paciente ou um profissional de saúde, da medicina ou da farmácia, informa à agência reguladora que suspeita que um medicamento causou um problema. No Reino Unido, isso é feito pelo sistema Yellow Card, e a MHRA diz que basta uma suspeita (em inglês).
As notificações vão para um banco de dados, junto com estudos clínicos e pesquisas publicadas. Quando elas apontam para um possível padrão, a Agência Europeia de Medicamentos chama isso de sinal: uma informação sobre um evento adverso que “pode ter sido causado por um medicamento e exige investigação adicional” (em inglês).
Depois, o comitê de segurança da agência avalia o sinal. Segundo a agência, o resultado pode ser nenhuma medida por enquanto, um pedido de mais dados ou uma mudança nas informações do produto. Essa mudança é feita por meio de uma “variação”: a empresa atualiza a bula com o texto que a agência define.
Alguém suspeita que um medicamento causou um problema e informa a agência.
Notificações, estudos ou outras fontes apontam para o mesmo padrão.
Especialistas pesam as evidências e decidem o que deve mudar, se algo deve mudar.
A empresa atualiza a bula com o texto que a agência pediu.
O alerta dos antidepressivos mostra cada etapa. Em 2019, o comitê de segurança de medicamentos da UE examinou as notificações do seu banco de dados, estudos publicados, redes sociais e revisões enviadas pelas empresas.
Em 16 de maio de 2019, o comitê pediu aos fabricantes de seis ISRS e quatro IRSN que apresentassem essa variação em até dois meses. A nova frase da bula diz: “Em alguns casos, esses sintomas continuaram após a interrupção do tratamento”. As bulas britânicas trazem a mesma frase: hoje você a encontra na bula do Cipralex (em inglês).
A frase não usa o nome PSSD. Em outubro de 2026, a MHRA disse que o nome será incluído (em inglês) nas bulas de alguns antidepressivos britânicos. Nosso artigo sobre o que as agências dizem sobre a PSSD acompanha essa história.
Como a finasterida ganhou o cartão de alerta?
Em duas etapas: primeiro uma frase na bula, depois um cartão em cada caixa. Em 2010, as informações do produto foram atualizadas. Elas diziam que, depois que o remédio começou a ser vendido, foram notificados problemas de ereção que continuavam após a interrupção.
A segunda etapa tinha a ver com quem estava informado. A MHRA começou uma nova revisão em 2023 porque os pacientes estavam preocupados com “a aparente falta de conhecimento” desses efeitos colaterais entre profissionais de saúde e pacientes. A agência pesquisou o banco de dados do Yellow Card e encontrou 375 notificações de problemas sexuais ou de fertilidade com finasterida entre 1992 e janeiro de 2023.
A maioria desses efeitos colaterais já estava na bula. Por isso, o grupo de especialistas que assessora a MHRA recomendou algo novo: um cartão dentro de cada caixa, dizendo que os problemas sexuais às vezes continuaram depois da interrupção. A MHRA anunciou a medida em abril de 2024.
Como os efeitos sexuais duradouros da isotretinoína chegaram à bula?
No Reino Unido, por meio de uma revisão de especialistas que começou em setembro de 2019. Ela analisou notificações do Yellow Card, estudos e relatos de pacientes e familiares. Em abril de 2023, a MHRA anunciou que as informações do produto alertariam para “notificações de disfunção sexual de longa duração” depois de parar a isotretinoína.
A mesma revisão disse que “não é possível afirmar” (em inglês) que a isotretinoína tenha causado de forma definitiva muitos desses efeitos. Uma frase na bula registra um risco que foi notificado. Ela não prova que o remédio seja a causa.
Nos EUA, o caminho foi uma petição. David Healy, professor de psiquiatria, pediu à FDA em 2018 que alertasse para os problemas sexuais duradouros.
Em junho de 2026, a FDA determinou que os fabricantes incluíssem “disfunção sexual que pode continuar após a interrupção do tratamento” na lista de reações adversas da bula. A frase não entrou na seção de alertas, que é separada, e nosso artigo sobre a decisão da FDA sobre a isotretinoína explica por quê.
“Qualquer menção na bula dá à pessoa afetada uma posição mais firme na relação com os médicos”, Healy escreveu (em inglês) depois.
O que você pode fazer?
Esses remédios ajudam muitas pessoas. Se você tem efeitos colaterais, a decisão é sua e de quem receitou o remédio. Se você toma um antidepressivo, não pare de uma vez. Com a finasterida e a isotretinoína, siga o que diz a bula.
Levando o assunto ao consultório
Você pode começar assim: “Minha bula diz que esses problemas podem continuar depois que a pessoa para o remédio. Acho que é isso que está acontecendo comigo.”
- Isso pode constar no meu prontuário como suspeita de efeito colateral?
- Você notifica a Anvisa, ou eu faço isso?
- O que mais poderia explicar meus sintomas, e como investigamos?
Notifique: isso ajuda todo mundo
A anotação do médico no prontuário ajuda você. Uma notificação à agência reguladora ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões aparecem.
- Não precisa ter certeza. Basta suspeitar, mesmo anos depois de ter parado.
- Onde: no Brasil, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo VigiMed; no Reino Unido, pelo sistema Yellow Card; nos EUA, pelo MedWatch.
- Use as palavras certas. Para um antidepressivo ISRS ou IRSN, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction) (MedDRA 10086208). Para a finasterida, escreva Síndrome pós-inibidor da 5-alfa-redutase (Post 5-alpha-reductase inhibitor syndrome) (MedDRA 10082430). A PAS ainda não tem um termo, então diga que os sintomas continuaram depois que você parou de tomar isotretinoína.
Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer
O que mais as pessoas perguntam?
Um alerta na bula prova que o remédio causa o problema? Não. Significa que uma agência reguladora analisou as notificações e decidiu que as pessoas devem ser informadas. Não existe um número confiável sobre a frequência desses efeitos, e as bulas não trazem nenhum. Nossas páginas sobre a PSSD, a PFS e a PAS mostram o que se sabe até agora.
Por que as bulas mudam de um país para outro? Cada agência faz sua própria revisão e define seu próprio texto, então as frases não são iguais. Se você citar uma, informe o país e a data. Nossos artigos sobre os alertas de PSSD pelo mundo e os alertas da isotretinoína mostram o que cada uma diz.
As notificações dos pacientes contam mesmo? Sim. Todas as revisões citadas aqui usaram notificações ou relatos de pacientes. A avaliação da UE de 2019 também levou em conta as redes sociais. Usar o termo MedDRA certo ajuda sua notificação a chegar ao lugar certo, como explica nosso artigo sobre os códigos da PSSD e da PFS.
Sam leu sobre problemas de ereção, mas “nada permanente”. Se os seus duraram, notifique: as frases sobre efeitos duradouros nas bulas de hoje começaram com notificações como a sua.
Fontes
- Agência Europeia de Medicamentos, PRAC. Recommendations on signals adopted at the 13-16 May 2019 PRAC meeting (em inglês), EMA/PRAC/265212/2019, seção 1.3, EPITT 19277, adotadas em 16 de maio de 2019. Evidências: EudraVigilance, a literatura publicada, as redes sociais e as revisões cumulativas das empresas. A variação devia ser apresentada “em até 2 meses” para citalopram, escitalopram, fluvoxamina, fluoxetina, paroxetina, sertralina, duloxetina, venlafaxina, desvenlafaxina e milnaciprana. Texto da bula, seção 2: “Em alguns casos, esses sintomas continuaram após a interrupção do tratamento”.
- Agência Europeia de Medicamentos, Signal management (em inglês), acesso em 21 de outubro de 2026. Definição de sinal; o PRAC prioriza e avalia os sinais; entre os resultados possíveis está a atualização das informações do produto por meio de uma variação. “A presença de um sinal de segurança não significa diretamente que um medicamento causou o evento adverso notificado”.
- MHRA, The Yellow Card scheme: guidance for healthcare professionals (em inglês), última atualização em 24 de julho de 2025: “Você não precisa provar a causalidade para notificar uma suspeita de reação adversa”.
- MHRA, Finasteride: review of safety data and expert advice on management of risks (em inglês), 29 de abril de 2024. O relatório completo (PDF) (em inglês) explica os motivos da revisão (seção 1) e a atualização de 2010 sobre problemas de ereção persistentes (seção 3.3). Também traz os dados do Yellow Card até 5 de janeiro de 2023: 375 notificações de disfunção sexual e distúrbios de fertilidade desde 27 de novembro de 1992 (seção 5.2). O cartão para o paciente foi recomendado pelo Pharmacovigilance Expert Advisory Group (seções 6 e 7, anexo 1).
- Cipralex (escitalopram), bula para o paciente (em inglês), Reino Unido, Electronic Medicines Compendium, seção 2.
- MHRA, Isotretinoin (Roaccutane): new safety measures to be introduced in the coming months (em inglês), Drug Safety Update, 26 de abril de 2023. Revisão do Isotretinoin Expert Working Group da Commission on Human Medicines, criado em setembro de 2019, com notificações do Yellow Card, estudos publicados e uma chamada pública por informações.
- MHRA, Antidepressants: new safety measures (em inglês), Drug Safety Update, 15 de outubro de 2026: o termo “PSSD” será incluído nas bulas dos antidepressivos associados a um risco de disfunção sexual que pode continuar depois da interrupção.
- Absorica e Absorica LD (isotretinoin), bula americana para profissionais (em inglês), DailyMed, revisada em agosto de 2026. Seção 6, Adverse Reactions, Reproductive System: “sexual dysfunction that may continue after discontinuation of treatment”. FDA, resposta à petição cidadã FDA-2018-P-4088 (em inglês), carta a David Healy datada de 16 de junho de 2026 e publicada em 17 de junho de 2026 (petição recebida em 29 de outubro de 2018; inclusão em Adverse Reactions aceita, inclusão em Warnings and Precautions negada); e FDA, atualizações da bula da isotretinoína genérica (em inglês), 17 de junho de 2026.
- David Healy, Regulators Bearing Gifts (em inglês), davidhealy.org, 20 de junho de 2026.
- Healy D, Bahrick A, Bak M e colegas. Diagnostic criteria for enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, finasteride and isotretinoin (em inglês). Int J Risk Saf Med 2022;33(1):65-76. Critérios propostos. Seção 3: entre os sintomas associados da PSSD estão “emotional numbing” (embotamento emocional), “cognitive impairment” (comprometimento cognitivo) e “other sensory problems” (outros problemas sensoriais); a seção 5 trata da PFS.
- Vídeos: Moral Medicine, The Hidden Devastation of Finasteride - Sam’s Story (em inglês), junho de 2025, “nada permanente” em 4:32; NHS Black Country Integrated Care Board, What is the Yellow Card Scheme? (em inglês), Medicine Safety Week, novembro de 2021.
Todas as citações foram traduzidas do inglês.
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