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Como é ter PSSD?

Quem tem disfunção sexual pós-ISRS (PSSD) descreve genitais dormentes, orgasmo sem prazer e emoções apagadas que continuaram depois de parar o remédio.

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Por Morten SkovPublicado
Como é ter PSSD?

Pessoas com disfunção sexual pós-ISRS (PSSD) descrevem genitais dormentes, orgasmo com pouco ou nenhum prazer e emoções apagadas. Elas contam que isso começou enquanto tomavam um antidepressivo ISRS ou IRSN e continuou depois que pararam.

A página do serviço público de saúde britânico (NHS) sobre antidepressivos (em inglês) lista desejo sexual baixo e dificuldade para chegar ao orgasmo, e diz que, para algumas pessoas, esses problemas podem continuar depois de parar. Ela não menciona genitais dormentes, e uma lista não consegue dizer como é viver isso.

A história em três linhas

  1. A bula britânica do Cipralex (escitalopram) diz que os ISRS e os IRSN podem causar problemas sexuais que, em alguns casos, continuaram depois de parar (bula, em inglês).
  2. Os critérios diagnósticos da PSSD, de 2022 (em inglês), exigem uma mudança duradoura na sensibilidade dos genitais e dizem que a anestesia emocional pode vir junto.
  3. Ninguém mediu com que frequência a PSSD acontece (em inglês). O que se sabe sobre como é ter PSSD vem de quem tem a doença.

Imprensa: contact@sidefxhub.com

Benjamin sentia que faltava alguma coisa na vida dele e achou que fosse depressão. Ele experimentou a duloxetina (Cymbalta), um antidepressivo IRSN. Meia hora depois da primeira dose, ele conta, um “cobertor cinza e pesado” caiu sobre tudo de que ele gostava.

Um trecho da entrevista de Benjamin à Moral Medicine, julho de 2024, em inglês. O trecho vai de 3:27 a 7:51. Ele descreve a primeira dose e o que mudou desde então. As opiniões são dele. Se você está passando por um momento difícil: o CVV atende no telefone 188, ligação gratuita, 24 horas por dia, e no chat em cvv.org.br.

“Parecia que meus genitais tinham sumido”, ele diz, e isso o assustou. Ele tomou o remédio por um mês e parou. A entrevista foi feita quase 14 anos depois.

Como é a PSSD na vida sexual?

Dormente no começo, conta Benjamin, por uns três anos. Isso foi passando, mas a sensação sexual não voltou: “Não está mais dormente, mas parece só um dedo.”

Os pesquisadores que escreveram os critérios de 2022 para diagnosticar a PSSD descrevem as duas coisas. Para algumas pessoas, é como se os genitais tivessem sido anestesiados. Para outras, o toque ali parece igual ao toque em qualquer outra parte do corpo.

Como mudou, segundo Benjamin

Primeira dose
Um cobertor cinzaParece que os genitais dele sumiram.
Um mês
Ele para de tomar duloxetinaOs sintomas continuam.
Cerca de três anos
A dormência vai passandoO toque continua sem sensação sexual.
Cinco ou seis anos
O cobertor sai de cimaO embotamento emocional “quase sumiu”.
Quase 14 anos
A sensação sexual não voltouO orgasmo continua abafado.
O relato de uma pessoa. Fonte: a entrevista de Benjamin à Moral Medicine, julho de 2024.

Ele nunca teve problemas de ereção e consegue chegar ao orgasmo. “Não sinto nada quando acontece”, ele diz. É tão abafado que ele precisa olhar para baixo para conferir.

O desejo sexual dele também sumiu. Antes, num dia difícil, ele sabia que o sexo ia levantar o ânimo dele. Essa “parte da sexualidade que fica em segundo plano”, ele diz, é do que ele mais sente falta.

Rosie tomou escitalopram (Lexapro) por quatro meses e meio. Mais de três anos depois do último comprimido, ela descreve um orgasmo quase sem prazer: “talvez tipo 1%” do que seria a sensação normal.

A atração não foi embora, ela diz, mas a sensação sim, como “acordar completamente daltônica”.

Um trecho da entrevista de Rosie à Moral Medicine, julho de 2024, em inglês. O trecho vai de 25:48 a 29:12. Ela lista os sintomas que ainda tem. As opiniões são dela. A entrevista completa menciona pensamentos suicidas. Se você está passando por um momento difícil: o CVV atende no telefone 188, ligação gratuita, 24 horas por dia, e no chat em cvv.org.br.

As bulas britânicas do escitalopram e da duloxetina listam, as duas, queda do desejo sexual e dificuldade para chegar ao orgasmo. Nenhuma das duas menciona genitais dormentes.

Como é a PSSD nas emoções?

Cinza, nas palavras de Rosie. A vida dela era “tão colorida”, ela diz, e agora tudo está “muito anestesiado”. “A vida não parece mais vida.”

Katie tinha 21 anos quando recebeu a receita de fluoxetina (Prozac). No começo, o humor dela melhorou. Depois, ela percebeu que “não conseguia sentir empolgação nem alegria, nem aproveitar nada direito”.

Um trecho do vídeo de Katie para a Moral Medicine, maio de 2026, em inglês. O trecho vai de 0:35 a 3:13. Ela descreve como as emoções dela mudaram com a fluoxetina. As opiniões são dela. Se você está passando por um momento difícil: o CVV atende no telefone 188, ligação gratuita, 24 horas por dia, e no chat em cvv.org.br.

O NHS lista a “anestesia emocional” entre os efeitos colaterais comuns dos antidepressivos. Os critérios de 2022 dizem que ela pode vir junto com a PSSD depois de parar.

As pessoas dizem que não é a mesma coisa que depressão. Mesmo no pior momento, antes do remédio, Katie “ainda tinha sentimentos”.

Pesquisadores da Universidade de East Anglia entrevistaram, no Reino Unido, 10 pessoas que têm PSSD (em inglês). Muitas falaram longamente sobre a anestesia emocional. Um participante disse que estava “andando por aí como uma estátua”.

Como é viver com PSSD?

Difícil de explicar, dizem as pessoas. Benjamin consegue fazer sexo. A parte difícil, ele diz, é contar à pessoa com quem está que, na verdade, tanto faz para ele se os dois vão fazer sexo ou não.

Katie percebeu que “não ficava a fim de ninguém”. Ninguém tinha dito a ela que isso podia ser um efeito colateral. Então, por anos, ela acreditou que havia “alguma coisa errada comigo, pessoalmente”.

Alguém da área da saúde sugeriu que ela talvez fosse assexual. Ela não vê assim. “Eu me lembro de como é ter sensações e desejos sexuais”, ela diz, “mas, na verdade, não consigo mais acessar essas funções.”

Todas as pessoas do estudo de East Anglia descreveram um efeito nas relações com outras pessoas. Muitas vezes, elas sentiam que não tinham sido ouvidas nas consultas. Nosso artigo A PSSD é real? explica em que pé a PSSD está na medicina e nas agências reguladoras.

Benjamin encontrou ajuda em outras pessoas que têm a doença. Conversar com elas, ele diz, foi “mais terapêutico” do que qualquer terapia que ele tinha tentado.

O que eu posso fazer?

Esses remédios ajudam muita gente. Se você tem efeitos colaterais, essa é uma decisão sua e de quem receitou o remédio. Não pare de uma vez.

Sintomas assim são difíceis de pôr em palavras em uma consulta curta. Anote tudo antes, com palavras simples: “Sertralina 50 mg desde janeiro de 2023, último comprimido em março de 2024. Sinto dormência ao toque. O orgasmo acontece, mas não sinto quase nada. Nenhum problema antes de 2023.”

Muitas pessoas contam que demoraram a ser levadas a sério. Leve a frase da bula britânica sobre os problemas sexuais que continuaram depois de parar. Você pode notificar mesmo que nenhum profissional de saúde concorde.

Notifique: isso ajuda todo mundo

Um relatório médico ajuda você. Uma notificação à agência reguladora ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões aparecem.

  • Não precisa ter certeza. Basta suspeitar, mesmo anos depois de ter parado.
  • Onde: no Brasil, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo VigiMed; no Reino Unido, pelo sistema Yellow Card; nos EUA, pelo MedWatch.
  • Use as palavras certas. Se os sintomas continuaram depois de parar, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction, MedDRA 10086208).

Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer

O que mais as pessoas perguntam?

A PSSD é só sexual? Não para todo mundo. Benjamin descreve névoa mental e diz que demora a absorver informações novas. Rosie tem zumbido no ouvido e não consegue mais curtir música. Os critérios de 2022 listam problemas cognitivos, e problemas sensoriais envolvendo a pele, o olfato, o paladar ou a visão, entre os sintomas que podem vir junto.

É parecida com a PFS? As descrições têm pontos em comum. Homens com síndrome pós-finasterida (PFS), sintomas duradouros depois da finasterida, também falam de genitais dormentes e emoções apagadas. Os critérios de 2022 tratam das duas doenças e dizem que, em cada uma, é comum haver menos sensibilidade nos genitais e menos desejo. As palavras desses homens estão em Como é ter PFS?

A PSSD passa? Para algumas pessoas, ela durou anos depois de parar. Ainda não se sabe em quem ela vai aparecer, nem se vai melhorar. Alguns sintomas de Benjamin foram diminuindo com os anos, mas a sensação sexual não voltou. Rosie disse que não teve nenhum tipo de recuperação. Nossa página sobre a PSSD mostra o que se sabe.

Por 10 anos, Benjamin teve medo de falar sobre o assunto e tentou esquecer. Isso não o levou a lugar nenhum, ele diz. Se você também guardou tudo só para você, uma notificação é um lugar para falar disso.

Fontes

  1. Cipralex 5 mg, 10 mg and 20 mg film-coated tablets (escitalopram), bula para pacientes (em inglês), Electronic Medicines Compendium (EMC 7718), revisada pela última vez em maio de 2025. Seção 2: “Medicamentos como o Cipralex (os chamados ISRS/IRSN) podem causar sintomas de disfunção sexual (ver seção 4). Em alguns casos, esses sintomas continuaram após a interrupção do tratamento.” A seção 4 lista ejaculação retardada, problemas de ereção, diminuição do desejo sexual e, em mulheres, dificuldade para chegar ao orgasmo.
  2. Também consultadas: Duloxetine 30 mg and 60 mg gastro-resistant capsules, bula para pacientes (em inglês), EMC 13593, revisada pela última vez em agosto de 2024, e Fluoxetine 20 mg hard capsules, bula para pacientes (em inglês), EMC 15755, revisada pela última vez em setembro de 2022. A bula da duloxetina tem a mesma frase na seção 2 (“os chamados ISRS/IRSN”); a da fluoxetina traz “Medicamentos como a Fluoxetine (os chamados ISRS)”. A da duloxetina lista “menos desejo sexual” e “dificuldade ou incapacidade de ter orgasmo”; a da fluoxetina lista “diminuição do desejo sexual ou problemas sexuais” e “problemas sexuais, incluindo problemas de orgasmo, que ocasionalmente persistem após a interrupção do tratamento”. Nenhuma das três menciona dormência nos genitais. A bula da duloxetina lista “dormência, incluindo dormência, sensação de picadas ou formigamento na pele” como efeito colateral geral.
  3. NHS, Antidepressants (em inglês), página revisada pela última vez em 12 de junho de 2025. Os efeitos colaterais comuns incluem “mudanças de humor, como sentir mais raiva ou anestesia emocional”. Também incluem “problemas com sexo, como desejo sexual baixo, dificuldade para chegar ao orgasmo, ressecamento vaginal ou dificuldade para ter ou manter uma ereção; para algumas pessoas, esses problemas podem continuar depois de parar os antidepressivos”. A página não menciona dormência genital.
  4. Healy D, Bahrick A, Bak M e colegas. Diagnostic criteria for enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, finasteride and isotretinoin (em inglês). International Journal of Risk & Safety in Medicine, 2022; 33(1): 65-76. PSSD, critérios necessários: tratamento anterior com um inibidor da recaptação de serotonina (o artigo inclui os ISRS e os IRSN entre eles) e “uma mudança duradoura na sensibilidade genital somática (tátil) ou erógena (sexual) depois que o tratamento termina”. “Algumas pessoas descrevem uma redução da sensibilidade somática (tátil): os genitais parecem ter sido expostos a um anestésico. Outras descrevem uma redução da sensibilidade erógena (sexual): o toque nos genitais parece um toque em qualquer outra parte do corpo.” Os sintomas não sexuais complementares “podem incluir” anestesia emocional, despersonalização, “outros problemas sensoriais envolvendo a pele, o olfato, o paladar ou a visão” e comprometimento cognitivo. “As características da PSSD, da PFS e da PRSD costumam incluir diminuição da sensibilidade genital e orgástica, diminuição do desejo sexual e disfunção erétil.” “A incidência dessas doenças é desconhecida.”
  5. Brugi S, Budd B, Mackie C, Fish S. “It’s taken away the most fundamental things about being human”: the lived experience and impact of post-SSRI sexual dysfunction (em inglês). International Journal of Qualitative Studies on Health and Well-being, 2026; 21(1): 2717470. University of East Anglia. Entrevistas com 10 pessoas no Reino Unido, recrutadas por meio da UK PSSD Association, com consentimento por escrito; os nomes são pseudônimos. “Muitos participantes falaram longamente sobre suas experiências de anestesia emocional”; “Estou andando por aí como uma estátua” (Frank). “Todos os participantes descreveram um impacto nas relações com outras pessoas.” “Os participantes descreveram com frequência a sensação de não terem sido ouvidos, principalmente nas consultas de saúde.” Um estudo pequeno, de entrevistas: mostra o que as pessoas descrevem, não com que frequência.
  6. Moral Medicine no YouTube. Benjamin (em inglês), 16 de julho de 2024, incorporado aqui como um trecho de 3:27 a 7:51: “quase 14 anos” em 1:46. “Faltava alguma coisa e eu achei que fosse depressão” em 3:34, e um mês tomando o remédio em 3:55. “30 minutos depois do primeiro comprimido” em 4:14, o “cobertor cinza e pesado” em 4:26 e “parecia que meus genitais tinham sumido” em 4:52. “Nunca foi embora” em 5:27. O embotamento emocional “quase sumiu agora”, depois de “uns cinco ou seis anos”, em 6:00. Nenhum problema de ereção em 6:36. “Na verdade, tanto faz para mim se a gente faz ou não” em 7:12. “Não sinto nada quando acontece” em 7:19, a dormência que passou “depois de uns 3 anos” em 7:35 e “parece só um dedo” em 7:39. “A sexualidade não voltou nem um pouco” em 7:45. Fora do trecho: “Estou passando por uma fase difícil na vida, mas sei o que vai… me levantar” em 9:49 e “a parte da sexualidade que fica em segundo plano é do que eu mais sinto falta” em 10:05. “Orgasmos abafados” em 24:33, e a lentidão para processar informações novas a partir de 24:46. Outras pessoas com a doença, “mais terapêutico e mais catártico do que qualquer terapia”, em 28:49. “Eu tinha medo de falar sobre isso, deixava de lado e tentava esquecer por, sabe, 10 anos” a partir de 29:05. O nome do remédio não fica claro nas legendas automáticas em 3:55; a descrição do canal e a página da história dele no nosso site dizem que é o Cymbalta. Rosie (em inglês), 9 de julho de 2024, incorporado aqui como um trecho de 25:48 a 29:12: quatro meses e meio de Lexapro, incluindo a redução gradual da dose, em 6:03. Último comprimido em 7 de dezembro de 2020 em 11:18, e nenhuma recuperação desde então em 15:24. O orgasmo, “talvez tipo 1%”, em 26:30. “Não é que eu não sinta atração… eu não consigo sentir nada, é igual a acordar completamente daltônica, tipo, eu ainda enxergo, mas não vejo as cores” a partir de 26:58, e “a vida não parece mais vida” em 27:46. A vida dela antes, “tão colorida”, e agora “muito anestesiado e meio cinza”, a partir de 1:57. O zumbido no ouvido e “não consigo curtir música” a partir de 28:47. Katie (em inglês), 26 de maio de 2026, incorporado aqui como um trecho de 0:35 a 3:13: a receita de fluoxetina aos 21 anos em 0:45. “Não conseguia sentir empolgação nem alegria, nem aproveitar nada direito” em 3:01. Fora do trecho: “alguma coisa errada comigo, pessoalmente” em 5:22, “ainda tinha sentimentos” em 5:41, a sugestão de assexualidade em 5:52, “Eu me lembro de como é” em 6:04 e “não ficava a fim de ninguém” em 6:46.
  7. As histórias dos três no nosso site: Benjamin, Rosie e Katie.

Todas as citações foram traduzidas do inglês.

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