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Efeitos a longo prazo dos antidepressivos

O NICE inglês cita efeitos na função sexual como possível risco dos antidepressivos a longo prazo. Bula britânica: às vezes continuaram após parar (PSSD).

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Por Morten SkovPublicado
Efeitos a longo prazo dos antidepressivos

Os efeitos a longo prazo dos antidepressivos podem incluir problemas sexuais: o NICE, instituto inglês de diretrizes de saúde, cita “efeitos a longo prazo sobre a função sexual” como um possível risco de continuar tomando esses remédios. A bula britânica da sertralina alerta que esses problemas às vezes continuaram depois de parar, quadro conhecido como disfunção sexual pós-ISRS (PSSD).

O NICE escreve as diretrizes de saúde e assistência social para a Inglaterra e o País de Gales, e orienta quem receita a conversar sobre esses riscos com as pessoas que continuam tomando um antidepressivo a longo prazo. Se ninguém falou de sexo com você, você pode puxar o assunto.

A história em três linhas

  1. O NICE (em inglês) lista possíveis riscos de continuar com os antidepressivos a longo prazo. Entre eles: “um risco aumentado de sangramento ou efeitos a longo prazo sobre a função sexual”.
  2. A bula britânica da sertralina (em inglês) diz que, em alguns casos, os sintomas sexuais “continuaram após a interrupção do tratamento”.
  3. Ninguém mediu com que frequência (revisão de 2023, em inglês). As pessoas afetadas chamam o quadro de PSSD.

Imprensa: contact@sidefxhub.com

Katie é do Reino Unido. Ela tinha 21 anos quando recebeu a receita de fluoxetina (Prozac) e tomou o remédio por cerca de três anos, com algumas pausas.

Um trecho do vídeo de Katie para a Moral Medicine, maio de 2026, em inglês. O trecho vai de 0:35 a 3:14. Ela descreve os anos em que tomou fluoxetina e o que mudou. As opiniões são dela. Se você está passando por um momento difícil: o CVV atende no telefone 188, ligação gratuita, 24 horas por dia, e no chat em cvv.org.br.

No começo o humor dela melhorou, ela conta, mas com o tempo ela “não conseguia sentir empolgação nem alegria, nem aproveitar nada direito”. Mais tarde, percebeu um problema sexual que, segundo ela, começou enquanto tomava o remédio. Katie convive com isso há 14 anos: ela se lembra das sensações e dos desejos sexuais, mas, nas palavras dela, “na verdade, não consigo mais acessar essas funções”.

Quais são os efeitos a longo prazo dos antidepressivos?

O NICE cita três possíveis riscos para quem continua tomando esses remédios: um risco maior de sangramento, efeitos a longo prazo sobre a função sexual e dificuldade para parar.

A diretriz do NICE sobre depressão em adultos (em inglês) orienta quem receita a conversar sobre “os possíveis riscos de continuar com os antidepressivos a longo prazo” e sobre como eles pesam diante do risco de a depressão voltar. Ela lista “possíveis efeitos colaterais, como um risco aumentado de sangramento ou efeitos a longo prazo sobre a função sexual”, e “dificuldade para parar os antidepressivos”.

A bula britânica da sertralina (em inglês) não diz quais efeitos colaterais vêm com o uso prolongado. Ela lista o ganho de peso como comum e diz que pessoas idosas podem ter mais risco de sódio baixo no sangue. Também diz que “foi observado um risco aumentado de fraturas ósseas em pacientes que tomam esse tipo de medicamento”.

Essa falta de emoção que Katie descreve não está na lista do NICE. Nosso artigo sobre o embotamento emocional com antidepressivos trata disso.

Quando os efeitos colaterais devem entrar na conversa

Antes do primeiro comprimido
Os possíveis danos são discutidosO NICE dá como exemplo os efeitos sobre a função sexual.
A cada reavaliação
Os efeitos colaterais são revistosPelo menos a cada seis meses, se você continua o tratamento para prevenir uma recaída.
Continuando a longo prazo
Os riscos são discutidosO NICE cita efeitos a longo prazo sobre a função sexual.
Depois do último comprimido
O alerta da bulaProblemas sexuais às vezes continuaram.
Fontes: diretriz NG222 do NICE; bula para pacientes do Lustral (sertralina) no Reino Unido.

Os efeitos colaterais dos antidepressivos passam com o tempo?

Muitos passam nas primeiras semanas, mas alguns podem ficar enquanto você tomar o remédio.

O Royal College of Psychiatrists (em inglês), a associação britânica de psiquiatras, diz que os efeitos colaterais são leves para a maioria das pessoas e “costumam passar em umas duas semanas”. O NICE pede que quem receita explique “como alguns efeitos colaterais podem persistir durante todo o tratamento”. Não diz quais.

Uma pesquisa on-line na Nova Zelândia ouviu 180 pessoas (em inglês) que tinham tomado antidepressivos por três anos ou mais. Cerca de 7 em cada 10 relataram dificuldades sexuais, e a maioria disse que o remédio tinha ajudado na depressão. Elas escolheram participar, então esse número não é uma taxa que valha para todo mundo.

Katie conta que, enquanto tomava fluoxetina, voltou várias vezes ao consultório de clínica geral e descreveu um problema sexual. Segundo ela, ninguém disse que podia ser um efeito colateral.

Katie tocou no assunto. Muitas mulheres e muitos homens não tocam, diz em um vídeo a psicóloga da Mayo Clinic Jordan Rullo. Ela pede que contem a quem receitou o remédio.

Mayo Clinic, outubro de 2016, em inglês. O trecho para em 0:33, antes de ela passar às formas de lidar com esses efeitos. Não recomendamos nenhuma.

Os problemas sexuais podem continuar depois de parar os antidepressivos?

Sim, para algumas pessoas. A bula britânica do Lustral (sertralina) (em inglês) diz que remédios como ele, chamados ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina), podem causar problemas sexuais, e acrescenta: “Em alguns casos, esses sintomas continuaram após a interrupção do tratamento.”

Em 2019, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) pediu esse alerta (em inglês) em todos os ISRS e IRSN. O que dizem a MHRA, a EMA e a FDA sobre a PSSD conta o que aconteceu depois.

O NICE não diz se os seus “efeitos a longo prazo sobre a função sexual” podem continuar depois do último comprimido. O Royal College of Psychiatrists cita a PSSD na sua informação para pacientes e diz que é preciso mais pesquisa para entender “por que isso acontece e com que frequência”. Percorremos as páginas do NHS, o serviço público de saúde britânico, em o que o NHS diz sobre antidepressivos e sexo.

Ninguém mediu com que frequência isso acontece. Uma revisão de 2023 (em inglês) das pesquisas publicadas não encontrou uma estimativa confiável. Joanna Moncrieff, professora de psiquiatria crítica e social na University College London (UCL), diz que é bem possível que quem atende essas pessoas não conheça o problema.

Um trecho do vídeo da professora Joanna Moncrieff para a PSSD Network, junho de 2026, em inglês. O trecho vai de 1:04 até o fim. Ela diz que algumas pessoas relatam que o problema durou anos. As opiniões são dela.

Para algumas pessoas, isso durou anos depois de parar. Ainda não se sabe em quem isso vai acontecer, nem se vai melhorar. O remédio em si sai do sangue bem antes, como explica nosso artigo sobre quanto tempo a sertralina fica no organismo.

O que eu posso fazer?

Esses remédios ajudam muita gente. Se você tem efeitos colaterais, essa é uma decisão sua e de quem receitou o remédio. Não pare de uma vez.

O NICE diz que quem continua com um antidepressivo para prevenir uma recaída deveria passar por uma reavaliação do tratamento pelo menos a cada seis meses, com os efeitos colaterais revistos todas as vezes. Você pode falar de sexo numa reavaliação mesmo que ninguém pergunte. Diga o que mudou e quando: “Sertralina 100 mg desde março de 2021. Orgasmo mais fraco desde meados daquele ano.”

Se um problema continua desde que você parou, informe também as suas datas: “Último comprimido em 14 de junho de 2026.”

Muitas pessoas contam que demoraram a ser levadas a sério. Leve a frase da bula britânica. Você pode notificar mesmo que nenhum profissional de saúde concorde.

Notifique: isso ajuda todo mundo

Um relatório médico ajuda você. Uma notificação à agência reguladora ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões aparecem.

  • Não precisa ter certeza. Basta suspeitar, mesmo anos depois de ter parado.
  • Onde: no Brasil, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo VigiMed; no Reino Unido, pelo sistema Yellow Card; nos EUA, pelo MedWatch.
  • Use as palavras certas. Se os sintomas continuaram depois de parar, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction, MedDRA 10086208).

Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer

O que mais as pessoas perguntam?

É seguro tomar antidepressivos por anos? A diretriz do NICE não responde nem sim nem não. Ela orienta quem receita a conversar com as pessoas sobre o fato de que continuar o tratamento “pode reduzir o risco de recaída e pode ajudá-las a continuar bem”, e a conversar sobre “os possíveis riscos de continuar com os antidepressivos a longo prazo”.

Quantas pessoas tomam antidepressivos a longo prazo? Na Inglaterra, em março de 2018, cerca de 930.000 pessoas recebiam receita de antidepressivo sem interrupção havia pelo menos três anos, segundo uma revisão da Public Health England (em inglês). Ela contou receitas, então não tem como dizer como essas pessoas estavam.

Problemas sexuais duradouros são um tipo de síndrome de retirada? A bula britânica trata os dois separadamente, em dois títulos: “Withdrawal reactions” (reações de retirada) e “Sexual problems” (problemas sexuais). Ela diz que as reações de retirada são comuns e que o risco depende em parte de há quanto tempo você toma o remédio. Nosso artigo sobre PSSD ou síndrome de retirada coloca as duas lado a lado.

Ninguém avisou Katie. Se a sua vida sexual mudou desde que você começou a tomar um antidepressivo, ou não voltou desde que você parou, comece pela nossa página sobre a disfunção sexual pós-ISRS.

Fontes

  1. National Institute for Health and Care Excellence (NICE), Depression in adults: treatment and management (em inglês), diretriz NG222 do NICE, publicada em 29 de junho de 2022 e revisada pela última vez em 30 de janeiro de 2026. O NICE descreve suas diretrizes como “recomendações baseadas em evidências para a saúde e a assistência social na Inglaterra e no País de Gales” (About NICE guidelines, em inglês). A recomendação 1.8.3 começa assim: “Converse com as pessoas sobre os possíveis riscos de continuar com os antidepressivos a longo prazo, e sobre como eles pesam diante dos riscos de recaída da depressão”. Em seguida vem a lista: “Entre eles: possíveis efeitos colaterais, como um risco aumentado de sangramento ou efeitos a longo prazo sobre a função sexual; dificuldade para parar os antidepressivos”. A recomendação 1.8.1 diz que continuar o tratamento “pode reduzir o risco de recaída e pode ajudá-las a continuar bem”. Também diz: “Chegue a uma decisão compartilhada sobre continuar ou não um tratamento para a depressão”. A recomendação 1.8.11 pede uma reavaliação “pelo menos a cada 6 meses” para quem continua com antidepressivos para prevenir uma recaída. Cada reavaliação deve “rever quaisquer efeitos colaterais”. A recomendação 1.4.10 trata da conversa antes de começar. Ela cita efeitos colaterais que as pessoas “gostariam especialmente de evitar (por exemplo, ganho de peso, sedação, efeitos sobre a função sexual)”. A recomendação 1.4.11 pede informação sobre “como alguns efeitos colaterais podem persistir durante todo o tratamento”. A única outra menção a efeitos sexuais é sobre medicamentos antipsicóticos (1.4.34). Texto conferido em 12 de outubro de 2026.
  2. Lustral 50 mg and 100 mg film-coated tablets (sertraline), bula para pacientes (em inglês), Viatris, electronic medicines compendium (emc 2835), revisada pela última vez em dezembro de 2025. Seção 2, “Sexual problems”: “Remédios como o Lustral (os chamados ISRS) podem causar sintomas de disfunção sexual (veja a seção 4). Em alguns casos, esses sintomas continuaram após a interrupção do tratamento.” Seção 2, “Withdrawal reactions”: elas “são comuns, principalmente se o tratamento for interrompido de repente”. A mesma seção: “O risco de sintomas de retirada depende da duração do tratamento, da dose e do ritmo em que a dose é reduzida.” Sobre o sódio: “Se você é uma pessoa idosa, pois pode ter mais risco de ter um nível baixo de sódio no sangue”. A seção 4 lista “aumento de peso” entre os efeitos colaterais comuns, que podem afetar até 1 em cada 10 pessoas. Ela termina assim: “Foi observado um risco aumentado de fraturas ósseas em pacientes que tomam esse tipo de medicamento.” A bula para o profissional de saúde (em inglês) do mesmo remédio (emc 1070, revisada em dezembro de 2025) diz que esse achado vem de estudos “realizados principalmente em pacientes com 50 anos ou mais”.
  3. Royal College of Psychiatrists, Antidepressants (em inglês), informação para pacientes, publicada em março de 2025. Os efeitos colaterais “serão leves para a maioria das pessoas”. Eles também “costumam passar em umas duas semanas, à medida que o corpo se acostuma com o remédio”. Sobre a PSSD: “Raramente, as pessoas podem ter efeitos colaterais sexuais mais persistentes depois de pararem de tomar ISRS.” O texto acrescenta que o termo PSSD “tem sido usado por algumas pessoas para descrever esses sintomas”. E: “É preciso mais pesquisa para entender por que isso acontece e com que frequência.” A palavra “raramente” (“rarely”) é do próprio Royal College. Nenhum estudo mediu com que frequência isso acontece.
  4. Cartwright C, Gibson K, Read J, Cowan O, Dehar T. Long-term antidepressant use: patient perspectives of benefits and adverse effects (em inglês). Patient Prefer Adherence 2016;10:1401-7. Uma pesquisa on-line anônima na Nova Zelândia, divulgada pela mídia; 180 pessoas adultas que tinham tomado antidepressivos por 3 a 15 anos. Dificuldades sexuais: 125 das 174 que responderam (71,8%). Os antidepressivos reduziram a depressão: 160 de 179 (89,4%). São dados relatados pelas próprias pessoas, e não uma amostra aleatória.
  5. European Medicines Agency, PRAC, recommendations on signals adopted at the 13-16 May 2019 PRAC meeting (em inglês), EMA/PRAC/265212/2019, seção 1.3, “Persistent sexual dysfunction after drug withdrawal”, adotadas em 16 de maio de 2019. Texto do alerta para seis ISRS e quatro IRSN.
  6. Tarchi L, Merola GP, Baccaredda-Boy O e colegas. Selective serotonin reuptake inhibitors, post-treatment sexual dysfunction and persistent genital arousal disorder: a systematic review (em inglês). Pharmacoepidemiol Drug Saf 2023;32(10):1053-67. “Não foi possível determinar estimativas confiáveis de prevalência.” A revisão também diz que, com os estudos que encontrou, não foi possível estabelecer uma relação de causa e efeito.
  7. Public Health England, Prescribed medicines review: summary (em inglês), atualizado em 3 de dezembro de 2020. Seção 2.4: 930.000 pessoas receberam receita de antidepressivo de forma contínua entre abril de 2015 e março de 2018. A revisão também diz que alguns pacientes precisam de antidepressivos a longo prazo “para manter o benefício e prevenir recaídas”.
  8. Moral Medicine, I Lost My Sexual Identity After Prozac (em inglês), vídeo com Katie, 26 de maio de 2026, 10 minutos. O título é do canal. A receita aos 21 anos e “uns 3 anos, com algumas pausas”, em 0:40. O humor melhora e depois ela “não conseguia sentir empolgação nem alegria, nem aproveitar nada direito”, de 2:48 a 3:08. O problema sexual “que começou enquanto tomava fluoxetina”, em 3:08. As voltas ao consultório de clínica geral, “várias vezes”, em 4:06. “Na verdade, não consigo mais acessar essas funções”, de 6:04 a 6:10. “Há 14 anos”, em 6:14. No nosso site, o trecho vai de 0:35 a 3:14. A história dela no nosso site: Katie: 14 anos depois do Prozac.
  9. Mayo Clinic, Dr. Jordan Rullo discusses antidepressants and sexual dysfunction (em inglês), 5 de outubro de 2016. A página de notícias (em inglês) da Mayo, da mesma data, a chama de “psicóloga da Mayo Clinic”. No nosso site, o vídeo para em 0:33.
  10. PSSD Network, Professor Joanna Moncrieff discusses Post-SSRI Sexual Dysfunction (em inglês), 25 de junho de 2026, 89 segundos. No nosso site, o trecho vai de 1:04 até o fim. Joanna Moncrieff é professora de Psiquiatria Crítica e Social na University College London. As opiniões são dela.

Todas as citações foram traduzidas do inglês.

Isto não substitui orientação médica. Converse com seu médico ou sua médica antes de tomar decisões sobre o tratamento.

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