Lexapro (escitalopram): efeitos colaterais sexuais
Os efeitos colaterais sexuais do Lexapro são comuns e devem melhorar com o tempo. Mas a bula britânica alerta que às vezes continuaram depois de parar.

Os efeitos colaterais sexuais do Lexapro incluem queda do desejo sexual, orgasmo retardado ou ausente, ejaculação retardada e problemas de ereção. No Reino Unido, o escitalopram é vendido como Cipralex, e a bula classifica esses efeitos como comuns: até 1 em cada 10 pessoas. Ela também diz que os efeitos colaterais “costumam desaparecer depois de algumas semanas de tratamento”. Mas a mesma bula alerta que, em alguns casos, os sintomas sexuais “continuaram após a interrupção do tratamento” (em inglês).
Esse alerta fica entre as precauções, não na lista de efeitos colaterais, e nem a página do NHS sobre o escitalopram (em inglês) nem a bula americana o mencionam. Não encontramos nenhum estudo que tenha medido com que frequência isso acontece com o escitalopram. Achamos que o alerta passa facilmente despercebido, e que quem vai começar a tomar escitalopram deveria ouvir as duas frases.
Comuns, e devem melhorar
O quadro oficial é tranquilizador, e em boa parte é justo. A página do NHS, o sistema público de saúde britânico, revisada em junho de 2026, lista “problemas sexuais, como desejo sexual baixo” entre os efeitos colaterais comuns. A maioria dos efeitos colaterais, diz a página, “deve melhorar depois de algumas semanas, à medida que o corpo se acostuma ao remédio, mas alguns podem durar mais”.
A bula americana do Lexapro (em inglês), revisada em outubro de 2023, trata o sexo como algo a ser manejado durante o tratamento. Ela orienta quem prescreve a perguntar sobre a função sexual antes da primeira dose e durante o tratamento, e a “discutir possíveis estratégias de manejo”. O guia para pacientes acrescenta que “pode haver tratamentos que o seu profissional de saúde pode sugerir”.
Nem toda mudança vem dos comprimidos. A bula americana observa que mudanças no desejo e no desempenho sexual “muitas vezes ocorrem como manifestações de um transtorno psiquiátrico”. E os antidepressivos ajudam muitas pessoas, e é por isso mesmo que o assunto importa: elas merecem o quadro completo. O que nenhum desses textos menciona é a frase da seção 2 da bula britânica.
A frequência depende de quem pergunta
O “até 1 em cada 10” da bula vem de ensaios clínicos, e a forma como um ensaio pergunta decide o que ele encontra. As informações de prescrição britânicas dizem que as suas frequências “foram obtidas de estudos clínicos” (em inglês). A bula americana diz que os seus ensaios coletaram os efeitos colaterais “principalmente por perguntas gerais”, anotados por cada pesquisador com as próprias palavras.
Contados assim, 12% dos homens que tomavam escitalopram relataram problemas de ejaculação, contra 1% com placebo, um comprimido sem princípio ativo. Entre as mulheres, 3% relataram não conseguir chegar ao orgasmo, contra menos de 1%. A própria bula alerta que números como esses “provavelmente subestimam” (em inglês) a taxa real, em parte porque “pacientes e médicos podem relutar em falar sobre eles”.
Perguntar diretamente a todos dá outra resposta. Em dois ensaios publicados por Clayton e colegas em 2006 (em inglês), adultos com depressão e vida sexual normal no início preencheram um questionário sobre função sexual. Na 8ª semana, quando os ensaios terminaram e as pessoas ainda tomavam os comprimidos, 30% das 281 pessoas com escitalopram tinham problemas de orgasmo, contra 9% das 273 com placebo. A função sexual como um todo tinha piorado em 36% com escitalopram e em 15% com placebo.
Os números do placebo lembram, com razão, que a depressão também afeta o sexo. Mas, como todos os números das bulas, eles não dizem o que acontece depois de parar.
Os efeitos colaterais sexuais do Lexapro podem ser permanentes?
Ninguém pode dizer de antemão. O que está documentado é que, para algumas pessoas, eles não pararam quando os comprimidos pararam.
Em maio de 2019, o comitê de segurança da Agência Europeia de Medicamentos, que supervisiona os medicamentos na UE, analisou notificações de problemas sexuais que continuaram depois da interrupção de dois grupos de antidepressivos: os inibidores seletivos da recaptação de serotonina (ISRS), grupo ao qual o escitalopram pertence, e os inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina (IRSN), um grupo parecido. O comitê avaliou evidências (em inglês) da base europeia de notificações de efeitos colaterais, de pesquisas publicadas, das redes sociais e das análises das próprias empresas. O escitalopram foi citado nominalmente, e todas as empresas autorizadas a vendê-lo receberam o pedido de incluir um alerta.
A frase da bula britânica é o texto do comitê, com o nome comercial preenchido, e as informações de prescrição britânicas (em inglês) informam os médicos sobre notificações de “disfunção sexual de longa duração”. O alerta está em todos os ISRS e IRSN, então não aponta o escitalopram em particular. A lista completa tem uma página própria, assim como as comparações entre antidepressivos.
- Bula britânica, 2025
- Os sintomas sexuais às vezes continuaram depois da interrupção
- Informações de prescrição britânicas, 2025
- Notificações de disfunção sexual de longa duração depois da interrupção
- Página do NHS sobre o escitalopram, 2026
- Lista problemas sexuais, nada sobre depois da interrupção
- Bula americana do Lexapro, 2023
- Problemas sexuais durante o tratamento, nada sobre depois da interrupção
- Com que frequência, com escitalopram
- Nenhum número publicado
É o mesmo remédio. Ver ou não o alerta depende da página que você lê.
Quando os problemas sexuais continuam depois da interrupção de um ISRS ou IRSN, pacientes e pesquisadores chamam isso de disfunção sexual pós-ISRS, ou PSSD. O relato de Rosie mostra o que isso pode significar para uma pessoa. Ela é presidente da PSSD Network e recebeu uma receita de Lexapro. Numa entrevista de 33 minutos à Moral Medicine, publicada em julho de 2024, ela descreve efeitos colaterais que já duravam mais de quatro anos e como foi difícil fazer com que fossem reconhecidos pelos médicos. A história dela tem uma página própria.
Não se sabe com que frequência a PSSD aparece depois do escitalopram, e o motivo está na própria natureza das evidências. Notificações mostram que algo aconteceu, nunca com que frequência. Em 2018, Healy e colegas (em inglês) descreveram 300 casos de problemas sexuais persistentes que pessoas de 37 países decidiram enviar ao RxISK, um site sobre segurança de medicamentos que os autores ajudaram a criar. Os artigos do site sobre o assunto “provavelmente estimularam as notificações”, então os números do estudo não são taxas. O escitalopram apareceu em 42 casos. Muitas pessoas descreveram algo que nenhuma das duas bulas menciona, a dormência genital: 49% dos homens e 60% das mulheres cujos problemas vieram depois de um antidepressivo.
Um estudo de 2023 de Ben-Sheetrit e colegas (em inglês) contou esses casos em 19 anos de prontuários de Israel, mas só em homens, e só como problemas de ereção tratados com comprimidos receitados. Dos 866 homens de 21 a 49 anos, sem outros problemas de saúde, que tinham tomado um antidepressivo com ação sobre a serotonina, 4 ainda tomavam esses comprimidos meses depois de parar o antidepressivo: 1 em 216. Os autores dizem que o método “pode subestimar” o número real. O escitalopram estava entre os remédios que esses quatro homens tinham tomado, então não é um número só do escitalopram.
Um número para o escitalopram exigiria o que os ensaios de 2006 tinham, perguntas diretas, e o que lhes faltava: anos de acompanhamento depois da interrupção. Enquanto ele não existir, os registros dos próprios pacientes estão entre os poucos lugares onde isso fica anotado, como o registro de pacientes do SIDEfxHUB. As pessoas cadastradas escolheram participar, então ele também não pode dar uma taxa, mas consegue acompanhar como os sintomas mudam ao longo dos anos.
O que perguntar, e o que fazer se não passou
Se você vai começar, pode falar do alerta antes do primeiro comprimido. A bula americana já espera que quem prescreve pergunte sobre a sua vida sexual, e a pergunta pode partir de você:
- A bula diz que os sintomas sexuais às vezes continuaram depois da interrupção. O que você sabe sobre isso?
- Como vamos perceber cedo se a minha vida sexual mudar?
Não pare nem mude nenhum remédio por causa de nada que esteja nesta página.
A bula do Cipralex (em inglês) diz para não parar de tomar o remédio até que seu médico ou sua médica oriente. Parar, sobretudo de uma vez, pode causar sintomas de retirada, como tontura. Se os efeitos colaterais sexuais preocupam você, converse com quem receitou o remédio.
Se você parou e as mudanças não passaram, a frase da bula é algo para levar ao consultório.
- Conte a quem receitou. Essa pessoa pode nunca ter visto isso. Mostre a seção 2 da bula.
- Notifique à agência reguladora de medicamentos do seu país (no Brasil, a Anvisa, pelo VigiMed), usando o termo do quadro abaixo. Você não precisa que um médico concorde com você, nem precisa comprovar que o remédio foi a causa.
- Cadastre-se no registro de pacientes. Uma notificação registra uma reação, uma única vez. O registro acompanha você ao longo de meses e anos.
Código MedDRA 10086208
Termo em inglês: Post-SSRI sexual dysfunction
O MedDRA é o dicionário médico que as agências reguladoras usam para classificar as notificações. Use esse termo se você tomou escitalopram (Lexapro, Cipralex) ou qualquer outro ISRS ou IRSN. Escreva esse texto exatamente assim no campo de texto livre e depois descreva os seus sintomas com suas palavras. “PSSD” é o nome que as pessoas afetadas usam e não está no dicionário, então não escreva só isso. Nosso guia para notificar efeitos colaterais cobre o Reino Unido, os Estados Unidos e outros 63 países.
A bula diz que os efeitos colaterais costumam desaparecer. Sobre os efeitos colaterais sexuais, ela também diz que às vezes continuaram depois da interrupção, e achamos que essa frase deveria entrar na conversa antes do primeiro comprimido, não só depois do último. Enquanto ninguém medir com que frequência isso acontece, o que fica documentado é o que os próprios pacientes registram, numa notificação e no registro de pacientes.
Se você está passando por um momento difícil: o CVV atende no telefone 188, ligação gratuita, 24 horas por dia, e no chat em cvv.org.br.
Todas as citações foram traduzidas do inglês.
Isto não substitui orientação médica. Converse com seu médico ou sua médica antes de tomar decisões sobre o tratamento.
570+ pessoas já estão no registro.
Cadastre-se e notifique seus efeitos colaterais.
- Deixe sua condição registrada
- Saiba antes de todos sobre estudos dos quais pode participar
- Depois, notifique seus efeitos colaterais à agência reguladora