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Como a PSSD é diagnosticada sem exame?

Não existe exame para a PSSD. O diagnóstico vem da história clínica: dormência genital ou outra mudança sexual que continua após parar um antidepressivo.

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Por Morten SkovPublicado Atualizado
Como a PSSD é diagnosticada sem exame?

Não existe exame de sangue nem de imagem para a PSSD, a disfunção sexual pós-ISRS. O diagnóstico é feito pela sua história clínica: mudanças sexuais ligadas a um antidepressivo ISRS ou IRSN, principalmente a dormência nos genitais, que continuam depois que você para de tomar o remédio.

Os critérios para diagnosticar a PSSD foram publicados numa revista médica em 2022, e talvez o seu clínico geral nunca os tenha visto. Então pode caber a você levar esses critérios à consulta e falar da dormência por conta própria.

A história em três linhas

  1. Nenhum exame mostra a PSSD. O diagnóstico é feito pela sua história clínica, e os critérios para isso foram publicados em 2022 (em inglês).
  2. A bula britânica do escitalopram (Cipralex) alerta que, em alguns casos, os problemas sexuais continuaram depois da interrupção do tratamento (em inglês).
  3. O governo britânico diz que reconhecer a PSSD no consultório está fora da alçada da agência reguladora de medicamentos (em inglês). Não disse de quem é essa tarefa.

Imprensa: contact@sidefxhub.com

Rosie desenvolveu PSSD depois que lhe receitaram escitalopram (Lexapro). Em 2024, como presidente da PSSD Network, ela falou de sintomas que já duravam cerca de quatro anos. Também contou como foi difícil fazer os médicos reconhecerem esses sintomas.

Rosie, presidente da PSSD Network, em entrevista à Moral Medicine em julho de 2024 (33 minutos).

Os médicos e pesquisadores que escreveram os critérios veem o mesmo problema. Doenças como a PSSD são “pouco conhecidas e mal compreendidas pelos profissionais de saúde”, escrevem eles.

Como é feito o diagnóstico da PSSD sem exame?

Pela sua história clínica. Um médico ou uma médica que conheça a doença compara o seu caso com os critérios de 2022 (em inglês), escritos por um grupo internacional liderado por David Healy. O grupo montou os critérios a partir de relatos de pacientes e espera que eles “precisem de modificações”.

O sinal decisivo é uma mudança na sensação dos genitais que continua mesmo depois que você para de tomar o remédio. Algumas pessoas dizem que é como se a região estivesse anestesiada. Outras dizem que ainda sentem o toque, mas ele já não parece sexual.

1
Precisa estar presente

Você tomou um ISRS ou IRSN. Desde que parou, a sensação nos seus genitais não é mais a mesma.

2
Reforça o diagnóstico

Perda duradoura do desejo, problemas de ereção, ausência de orgasmo ou orgasmos com pouco prazer. O problema já dura três meses ou mais desde que você parou.

3
Precisa ser descartado

Nenhum problema parecido antes do remédio. Nenhuma outra doença, remédio ou substância que possa explicar o quadro.

Os critérios de 2022 para a PSSD, em resumo. Fonte: Healy e colegas, International Journal of Risk & Safety in Medicine, 2022.

Segundo os autores, os efeitos colaterais sexuais comuns podem durar dias ou semanas depois do último comprimido. Quando o problema já dura três meses, eles concordam que a PSSD é mais provável.

Eles também alertam que a mudança na sensação “pode ficar escondida sob” a falta de desejo. Por isso, fale dela, mesmo que na consulta só perguntem sobre o desejo.

Por que o clínico geral pode não conhecer a PSSD?

Porque os critérios estão numa revista científica, e nenhuma das medidas oficiais tomadas desde 2019 explica como diagnosticar a PSSD. Essas medidas deram à PSSD um alerta na bula e códigos para os prontuários.

As medidas oficiais registram a PSSD. Os critérios vieram de pesquisadores.

2019
Um alerta na bulaAs informações oficiais britânicas de cada ISRS dizem que foram notificados problemas sexuais duradouros.
2021
Um termo para as notificações“Post-SSRI sexual dysfunction” entra no MedDRA, o dicionário das agências reguladoras.
2022
Critérios diagnósticosPublicados numa revista por médicos e pesquisadores.
2024
Um código para os prontuários do NHSIncluído no SNOMED em outubro.
2025
Reconhecer a PSSD no consultórioNão cabe à MHRA, diz o governo.
Fontes: resposta escrita do governo britânico HL7363, maio de 2025; Healy e colegas, 2022.

Na Inglaterra, a diretriz do NICE sobre depressão (em inglês) menciona efeitos de longo prazo sobre a vida sexual enquanto a pessoa toma antidepressivos. Ela não fala de problemas que continuam depois que a pessoa para.

Em maio de 2025, um membro da Câmara dos Lordes perguntou se o governo reconheceria a PSSD. A resposta (em inglês) citou o alerta e os códigos, e também um grupo de especialistas que estuda como as bulas descrevem o risco. Reconhecer a PSSD no consultório, disse a resposta, está “fora da alçada da MHRA”, a agência britânica de medicamentos.

Pode ser depressão ou sintomas de retirada?

Pode, e quem atende você deve considerar as duas possibilidades. A pista que aponta para a PSSD é uma mudança na sensação dos genitais.

A própria depressão pode afetar a vida sexual. Uma revisão de 2012 (em inglês) concluiu que ela aumentava o risco de problemas sexuais em pessoas acompanhadas durante anos.

Mas os autores dos critérios dizem que as mudanças na sensação genital “parecem ser características da PSSD”. Ter hoje um diagnóstico de saúde mental “não impede” o diagnóstico de PSSD, acrescentam.

Disseram que é coisa da sua cabeça? Eles também citam esse risco: o “diagnóstico errado de problema psicogênico”, ou seja, atribuído à mente.

Os sintomas de retirada têm características próprias, como tontura ou sensações parecidas com choques elétricos, e um tempo próprio. A bula britânica do Cipralex (em inglês) diz que eles costumam passar em duas semanas, embora em algumas pessoas durem meses. Então, se o clínico geral sugerir esperar um pouco mais, é razoável.

Para algumas pessoas, porém, as mudanças sexuais duraram anos depois de parar. Jonathan fala sobre viver com PSSD numa entrevista à Moral Medicine.

Jonathan, em entrevista à Moral Medicine em janeiro de 2024 (28 minutos).

O que eu posso fazer?

Esses remédios ajudam muita gente. Se você tem efeitos colaterais, o que fazer é uma decisão sua e de quem receitou o remédio. Não pare de uma vez.

Imprima os critérios (em inglês), que podem ser lidos de graça, e leve ao clínico geral, no SUS ou no plano de saúde, um breve histórico por escrito:

  1. Seu remédio: “Sertralina 50 mg desde janeiro de 2023, último comprimido em março de 2024”.
  2. O que mudou: “sinto dormência ao toque”, “orgasmo sem prazer”.
  3. Quando começou: antes, enquanto você tomava ou depois de parar.
  4. Como era antes: “Nenhum problema antes de 2023”.
  5. O que mais vão perguntar: outros remédios, anticoncepcionais, álcool, diabetes, menopausa.

Peça que a PSSD seja registrada no seu prontuário. Desde outubro de 2024, os prontuários do NHS, o sistema público de saúde britânico, têm um código para problemas sexuais que continuam depois de parar um ISRS.

Muitas pessoas contam que levou tempo até serem levadas a sério. Leve a frase da bula sobre problemas que continuam depois de parar. Você pode notificar sem precisar do aval do seu médico ou da sua médica.

Notifique: isso ajuda todo mundo

O registro no prontuário ajuda você. Uma notificação à agência reguladora ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões aparecem.

  • Não é preciso comprovar nada. Basta suspeitar, mesmo anos depois de ter parado.
  • Onde: no Brasil, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo VigiMed; no Reino Unido, pelo sistema Yellow Card (em inglês); nos Estados Unidos, pelo MedWatch.
  • Use as palavras certas. Se os sintomas continuaram depois que você parou, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction) (MedDRA 10086208).

Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer

O que mais as pessoas perguntam?

Ainda vou precisar de exames de sangue? Talvez. Os critérios pedem que outras causas médicas sejam descartadas, e isso pode exigir exames. Níveis hormonais no limite da normalidade às vezes aparecem na PSSD, mas eles “podem ser uma consequência dessas doenças, e não uma causa”, observam os autores. Resultados normais não descartam a PSSD.

Dá para ter o diagnóstico enquanto ainda tomo o remédio? É possível. Para quem não pode parar o antidepressivo, os autores escrevem que “um diagnóstico provisório pode se justificar”. Você não precisa parar antes de falar disso com o clínico geral. Qualquer mudança no seu remédio é uma decisão sua e de quem o receitou.

Mulheres podem receber o diagnóstico de PSSD? Sim. Valem os mesmos critérios, e uma mudança na sensação genital conta da mesma forma. Os critérios acrescentam um sinal para mulheres, menos lubrificação vaginal, e citam a perda de sensibilidade nos mamilos para qualquer pessoa. Nosso artigo sobre PSSD em mulheres mostra o que as mulheres descrevem.

Para Rosie, conseguir que seus sintomas fossem reconhecidos foi uma luta. Comece com uma página sobre o seu remédio e o que mudou, e leve essa página ao clínico geral junto com os critérios e a nossa página sobre a PSSD.

Fontes

  • Healy D, Bahrick A, Bak M, et al. Diagnostic criteria for enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, finasteride and isotretinoin (em inglês). International Journal of Risk & Safety in Medicine, 2022; 33(1): 65-76. Consenso de 37 autores de dez países, coordenado a partir da McMaster University, no Canadá. Redigido com base em duas séries de casos publicadas (Hogan e colegas, 2014; Healy e colegas, 2018), feitas com notificações que as pessoas escolheram enviar ao RxISK.org, e revisado “até chegar a um acordo”. O artigo não relata nenhum teste dos critérios em pacientes. Três autores declaram ligações com o RxISK.org. Acesso aberto (CC BY-NC 4.0).
  • Lundbeck Limited. Bula do Cipralex (escitalopram) (em inglês), electronic Medicines Compendium. Seção 2: em alguns casos, os problemas sexuais “continuaram após a interrupção do tratamento”. Seção 3: os sintomas de retirada costumam passar em duas semanas e, em algumas pessoas, duram de 2 a 3 meses ou mais.
  • Lundbeck Limited. Bula do Cipralex para o profissional de saúde (summary of product characteristics) (em inglês), seção 4.4 (texto revisado em maio de 2025): “notificações de disfunção sexual de longa duração em que os sintomas continuaram apesar da interrupção”.
  • Parlamento do Reino Unido. Written question HL7363 (em inglês), feita por Lord Alton of Liverpool em 12 de maio de 2025 e respondida pela baronesa Merron, em nome do Ministério da Saúde britânico (Department of Health and Social Care), em 16 de maio de 2025. Trata da atualização das informações do produto em 2019, do termo MedDRA de 2021, do código SNOMED incluído em outubro de 2024, do grupo de trabalho de especialistas da MHRA sobre como as bulas comunicam o risco e da alçada da MHRA.
  • National Institute for Health and Care Excellence. Depression in adults: treatment and management (NG222) (em inglês), 2022, recomendação 1.8.3.
  • Atlantis E, Sullivan T. Bidirectional association between depression and sexual dysfunction: a systematic review and meta-analysis (em inglês). Journal of Sexual Medicine, 2012; 9(6): 1497-507. Seis estudos prospectivos com 3.285 pessoas acompanhadas por 2 a 9 anos.
  • Medicines and Healthcare products Regulatory Agency. Yellow Card scheme (em inglês): “Qualquer pessoa pode notificar um problema com um medicamento”.
  • Termo de nível mais baixo do MedDRA Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction), código 10086208 (MedDRA versão 28.0).
  • Moral Medicine. Interview with PSSD Network President Rosie (em inglês), YouTube, 9 de julho de 2024.
  • Moral Medicine. Jonathan’s Experience as a PSSD Sufferer (em inglês), YouTube, 15 de janeiro de 2024.

Todas as citações foram traduzidas do inglês.

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