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Antidepressivo e sexo: o que as listas não veem

O que medem as listas de antidepressivos, o que perguntar na consulta antes de começar e o que fazer se os efeitos colaterais não passaram.

Antidepressivo e sexo: o que as listas não veem

Quer um antidepressivo que poupe sua vida sexual? Nenhuma lista consegue dizer qual. Os estudos por trás das classificações só contaram os problemas durante o tratamento.

As bulas britânicas de oito ISRS e IRSN avisam que os problemas sexuais podem continuar depois de parar o remédio. Isso se chama disfunção sexual pós-ISRS (PSSD).

Cornelia tomou mirtazapina, um antidepressivo, por três semanas em 2020. Quatro anos depois, ela contou à Moral Medicine que os problemas sexuais nunca tinham passado e falou da anedonia, a incapacidade de sentir prazer na vida.

Veja como ela descreve, com as próprias palavras, o que as classificações nunca mediram: o que veio depois do último comprimido. A entrevista é em inglês.

Cornelia conta à Moral Medicine como foram as três semanas com mirtazapina e o que veio depois. Novembro de 2024, 23 minutos, em inglês. A história dela tem uma página própria.

Um estudo que para de contar no último comprimido nunca teria visto o que aconteceu com ela. Se a vida sexual é importante para você, pergunte sobre isso antes da primeira receita.

Então, o que as classificações mostram e o que você deve perguntar?

Qual antidepressivo tem menos efeitos colaterais sexuais?

Ninguém consegue dizer com segurança. Uma grande revisão das pesquisas (em inglês) classificou como baixa a qualidade das próprias evidências e disse que não conseguia mostrar com precisão como um antidepressivo se compara a outro.

Alguns estudos encontraram, sim, menos problemas com certos remédios enquanto as pessoas os tomavam. Como organização beneficente, nunca classificamos remédios, por isso não citamos os nomes. Não importa o que tenham encontrado: esses estudos pararam de contar no último comprimido.

O jeito de perguntar também muda a resposta. A bula americana da vortioxetina mostra os dois lados: poucos homens relataram um problema sexual por conta própria, mas muito mais homens tinham algum quando um questionário perguntava diretamente. Uma lista feita com o que as pessoas contam espontaneamente pode ficar muito diferente de uma feita com questionários.

Vortioxetina em homens: perguntar muda a resposta

Relataram por conta própria: placebo2 em 100
Relataram por conta própria: vortioxetina5 em 100
Responderam a um questionário: placebo14 em 100
Responderam a um questionário: vortioxetina29 em 100
Homens na dose máxima, contados enquanto tomavam os comprimidos. As linhas do questionário contam problemas novos em homens cuja vida sexual era normal no início. Fonte: bula americana do Trintellix (vortioxetina) (em inglês).

Os efeitos colaterais sexuais podem durar depois de parar o antidepressivo?

Para algumas pessoas, sim. Em 2019, a Agência Europeia de Medicamentos pediu que dez antidepressivos ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) e IRSN (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina) passassem a trazer um alerta.

A bula britânica da sertralina (em inglês) agora diz que, em alguns casos, os sintomas sexuais “continuaram após a interrupção do tratamento”. A bula para o profissional de saúde (em inglês) menciona relatos de “disfunção sexual de longa duração”.

É isso que pacientes e quem pesquisa o assunto chamam de PSSD. Os critérios diagnósticos propostos (em inglês) descrevem genitais que podem ficar dormentes, como se estivessem anestesiados, e orgasmos com pouco ou nenhum prazer. Isso pode durar meses ou anos depois do último comprimido.

A PSSD é mais do que problemas sexuais. Os critérios propostos em 2022 descrevem uma mudança duradoura na sensibilidade genital, muitas vezes dormência, e também embotamento emocional, dificuldades de cognição e mudanças em outros sentidos.

Ninguém contou ainda com que frequência isso acontece. Uma revisão de 2023 (em inglês) procurou e não encontrou uma estimativa confiável. As notificações às agências reguladoras fizeram parte das evidências que levaram ao alerta, mas não conseguem mostrar o quanto isso é comum.

Outros antidepressivos, como a mirtazapina de Cornelia, ficaram de fora do alerta de 2019, e se sabe bem menos sobre eles. Os mesmos critérios citam relatos de algo parecido depois da mirtazapina, mas dizem que ainda não há dados suficientes para saber se é a mesma doença. Pouco estudado não quer dizer seguro.

O que perguntar antes de começar um antidepressivo?

Pergunte sobre sexo. É uma pergunta normal. A diretriz do NICE para a Inglaterra (em inglês) diz que os efeitos colaterais que você mais quer evitar devem entrar no seu plano de tratamento, e dá como exemplo os efeitos sobre a função sexual.

Qual remédio combina com você é uma escolha sua e de quem receita, que conhece o seu histórico.

Perguntas para levar ao seu médico ou à sua médica

Você pode começar assim: “Sexo é importante para mim, então quero conversar sobre efeitos colaterais antes de decidirmos.”

  • Com que frequência aparecem efeitos colaterais sexuais com este remédio, e como isso foi contado?
  • A bula diz alguma coisa sobre o que acontece depois de parar?
  • Se minha vida sexual ou meus sentimentos mudarem, como vamos saber se é efeito do remédio ou da depressão?
  • Se um dia eu quiser parar, como vamos planejar isso?

Já toma antidepressivo há algum tempo? O NICE também inclui os “efeitos de longo prazo sobre a função sexual” entre os riscos a discutir se você continuar o tratamento.

O que fazer se os efeitos colaterais não passaram?

Esses remédios ajudam muita gente. Se você tem efeitos colaterais, o que fazer é uma decisão sua e de quem receitou o remédio. Não pare de uma vez.

Conte a quem receitou o remédio o que mudou, e quando: “Sertralina 50 mg desde janeiro de 2023, último comprimido em março de 2024. Desde então, sinto dormência ao toque.”

Muitas pessoas contam que demoraram a ser levadas a sério. Leve a frase da bula sobre o que acontece depois de parar. Você pode notificar sem precisar que um médico concorde.

Não sabe quem pode notificar? Este vídeo de dois minutos do NHS, o serviço público de saúde britânico, responde antes de você preencher o formulário. Ele mostra o sistema britânico Yellow Card e é em inglês. No Brasil, a notificação vai para a Anvisa, como explica o quadro abaixo.

Uma farmacêutica explica, para o NHS (o serviço público de saúde britânico) na região do Black Country, na Inglaterra, como funciona o Yellow Card: qualquer pessoa pode notificar a suspeita de um efeito colateral. Novembro de 2021, dois minutos, em inglês.

Notifique: isso ajuda todo mundo

Um registro no seu prontuário ajuda você. Uma notificação à agência reguladora ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões aparecem.

  • Não precisa ter certeza. Basta suspeitar, mesmo anos depois de ter parado.
  • Onde: no Brasil, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo VigiMed; no Reino Unido, pelo sistema Yellow Card; nos EUA, pelo MedWatch.
  • Use as palavras certas. Se os sintomas continuaram depois de um ISRS ou IRSN, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction, MedDRA 10086208). Se foi outro antidepressivo, diga qual foi e informe que os sintomas continuaram depois de parar.

Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer

O que mais as pessoas perguntam?

Os efeitos colaterais sexuais dos antidepressivos são comuns? Muito comuns, quando se pergunta. Num estudo espanhol (em inglês) que fez as mesmas perguntas a todo mundo, mais da metade das pessoas que tomavam antidepressivo passou a ter um problema sexual novo. Quando só se conta quem fala por conta própria, os números parecem bem menores.

É a depressão ou o remédio? Pode ser um, o outro ou os dois. A própria depressão muitas vezes afeta a vida sexual, observa uma grande revisão. Esse é um dos motivos para os ensaios compararem o remédio com um placebo, um comprimido sem princípio ativo. Anotar como as coisas estavam antes, durante e depois do tratamento ajuda a separar uma coisa da outra.

Quais antidepressivos trazem o alerta? Os seis ISRS e os quatro IRSN que a agência europeia citou em 2019, entre eles a sertralina, o citalopram, a fluoxetina e a venlafaxina. Nossa lista completa traz todos os nomes comerciais. Se o seu remédio está na lista, isso não quer dizer que vai acontecer com você.

Cornelia tomou os comprimidos por três semanas, e a história dela agora está registrada. Se os seus efeitos colaterais não pararam depois do último comprimido, uma notificação registra a sua também.

Fontes

Todas as citações foram traduzidas do inglês.

Por Morten SkovPublicado Atualizado

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