Antidepressivo e sexo: o que as listas não veem
O que medem as listas de antidepressivos, o que perguntar na consulta antes de começar e o que fazer se os efeitos colaterais não passaram.

Quer um antidepressivo que poupe sua vida sexual? Nenhuma lista consegue dizer qual. Os estudos por trás das classificações só contaram os problemas durante o tratamento.
As bulas britânicas de oito ISRS e IRSN avisam que os problemas sexuais podem continuar depois de parar o remédio. Isso se chama disfunção sexual pós-ISRS (PSSD).
Cornelia tomou mirtazapina, um antidepressivo, por três semanas em 2020. Quatro anos depois, ela contou à Moral Medicine que os problemas sexuais nunca tinham passado e falou da anedonia, a incapacidade de sentir prazer na vida.
Veja como ela descreve, com as próprias palavras, o que as classificações nunca mediram: o que veio depois do último comprimido. A entrevista é em inglês.
Um estudo que para de contar no último comprimido nunca teria visto o que aconteceu com ela. Se a vida sexual é importante para você, pergunte sobre isso antes da primeira receita.
Então, o que as classificações mostram e o que você deve perguntar?
Qual antidepressivo tem menos efeitos colaterais sexuais?
Ninguém consegue dizer com segurança. Uma grande revisão das pesquisas (em inglês) classificou como baixa a qualidade das próprias evidências e disse que não conseguia mostrar com precisão como um antidepressivo se compara a outro.
Alguns estudos encontraram, sim, menos problemas com certos remédios enquanto as pessoas os tomavam. Como organização beneficente, nunca classificamos remédios, por isso não citamos os nomes. Não importa o que tenham encontrado: esses estudos pararam de contar no último comprimido.
O jeito de perguntar também muda a resposta. A bula americana da vortioxetina mostra os dois lados: poucos homens relataram um problema sexual por conta própria, mas muito mais homens tinham algum quando um questionário perguntava diretamente. Uma lista feita com o que as pessoas contam espontaneamente pode ficar muito diferente de uma feita com questionários.
Vortioxetina em homens: perguntar muda a resposta
Os efeitos colaterais sexuais podem durar depois de parar o antidepressivo?
Para algumas pessoas, sim. Em 2019, a Agência Europeia de Medicamentos pediu que dez antidepressivos ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) e IRSN (inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina) passassem a trazer um alerta.
A bula britânica da sertralina (em inglês) agora diz que, em alguns casos, os sintomas sexuais “continuaram após a interrupção do tratamento”. A bula para o profissional de saúde (em inglês) menciona relatos de “disfunção sexual de longa duração”.
É isso que pacientes e quem pesquisa o assunto chamam de PSSD. Os critérios diagnósticos propostos (em inglês) descrevem genitais que podem ficar dormentes, como se estivessem anestesiados, e orgasmos com pouco ou nenhum prazer. Isso pode durar meses ou anos depois do último comprimido.
A PSSD é mais do que problemas sexuais. Os critérios propostos em 2022 descrevem uma mudança duradoura na sensibilidade genital, muitas vezes dormência, e também embotamento emocional, dificuldades de cognição e mudanças em outros sentidos.
Ninguém contou ainda com que frequência isso acontece. Uma revisão de 2023 (em inglês) procurou e não encontrou uma estimativa confiável. As notificações às agências reguladoras fizeram parte das evidências que levaram ao alerta, mas não conseguem mostrar o quanto isso é comum.
Outros antidepressivos, como a mirtazapina de Cornelia, ficaram de fora do alerta de 2019, e se sabe bem menos sobre eles. Os mesmos critérios citam relatos de algo parecido depois da mirtazapina, mas dizem que ainda não há dados suficientes para saber se é a mesma doença. Pouco estudado não quer dizer seguro.
O que perguntar antes de começar um antidepressivo?
Pergunte sobre sexo. É uma pergunta normal. A diretriz do NICE para a Inglaterra (em inglês) diz que os efeitos colaterais que você mais quer evitar devem entrar no seu plano de tratamento, e dá como exemplo os efeitos sobre a função sexual.
Qual remédio combina com você é uma escolha sua e de quem receita, que conhece o seu histórico.
Perguntas para levar ao seu médico ou à sua médica
Você pode começar assim: “Sexo é importante para mim, então quero conversar sobre efeitos colaterais antes de decidirmos.”
- Com que frequência aparecem efeitos colaterais sexuais com este remédio, e como isso foi contado?
- A bula diz alguma coisa sobre o que acontece depois de parar?
- Se minha vida sexual ou meus sentimentos mudarem, como vamos saber se é efeito do remédio ou da depressão?
- Se um dia eu quiser parar, como vamos planejar isso?
Já toma antidepressivo há algum tempo? O NICE também inclui os “efeitos de longo prazo sobre a função sexual” entre os riscos a discutir se você continuar o tratamento.
O que fazer se os efeitos colaterais não passaram?
Esses remédios ajudam muita gente. Se você tem efeitos colaterais, o que fazer é uma decisão sua e de quem receitou o remédio. Não pare de uma vez.
Conte a quem receitou o remédio o que mudou, e quando: “Sertralina 50 mg desde janeiro de 2023, último comprimido em março de 2024. Desde então, sinto dormência ao toque.”
Muitas pessoas contam que demoraram a ser levadas a sério. Leve a frase da bula sobre o que acontece depois de parar. Você pode notificar sem precisar que um médico concorde.
Não sabe quem pode notificar? Este vídeo de dois minutos do NHS, o serviço público de saúde britânico, responde antes de você preencher o formulário. Ele mostra o sistema britânico Yellow Card e é em inglês. No Brasil, a notificação vai para a Anvisa, como explica o quadro abaixo.
Notifique: isso ajuda todo mundo
Um registro no seu prontuário ajuda você. Uma notificação à agência reguladora ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões aparecem.
- Não precisa ter certeza. Basta suspeitar, mesmo anos depois de ter parado.
- Onde: no Brasil, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo VigiMed; no Reino Unido, pelo sistema Yellow Card; nos EUA, pelo MedWatch.
- Use as palavras certas. Se os sintomas continuaram depois de um ISRS ou IRSN, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction, MedDRA 10086208). Se foi outro antidepressivo, diga qual foi e informe que os sintomas continuaram depois de parar.
Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer
O que mais as pessoas perguntam?
Os efeitos colaterais sexuais dos antidepressivos são comuns? Muito comuns, quando se pergunta. Num estudo espanhol (em inglês) que fez as mesmas perguntas a todo mundo, mais da metade das pessoas que tomavam antidepressivo passou a ter um problema sexual novo. Quando só se conta quem fala por conta própria, os números parecem bem menores.
É a depressão ou o remédio? Pode ser um, o outro ou os dois. A própria depressão muitas vezes afeta a vida sexual, observa uma grande revisão. Esse é um dos motivos para os ensaios compararem o remédio com um placebo, um comprimido sem princípio ativo. Anotar como as coisas estavam antes, durante e depois do tratamento ajuda a separar uma coisa da outra.
Quais antidepressivos trazem o alerta? Os seis ISRS e os quatro IRSN que a agência europeia citou em 2019, entre eles a sertralina, o citalopram, a fluoxetina e a venlafaxina. Nossa lista completa traz todos os nomes comerciais. Se o seu remédio está na lista, isso não quer dizer que vai acontecer com você.
Cornelia tomou os comprimidos por três semanas, e a história dela agora está registrada. Se os seus efeitos colaterais não pararam depois do último comprimido, uma notificação registra a sua também.
Fontes
- Bula do Lustral (sertralina) para pacientes, Reino Unido (em inglês). Viatris, revisada em dezembro de 2025. Seção 2, problemas sexuais; seção 3, como parar.
- PRAC recommendations on signals, 13 to 16 May 2019 (em inglês). Agência Europeia de Medicamentos. Item 1.3: ISRS e IRSN, disfunção sexual persistente depois de parar. O texto vale para dez medicamentos: citalopram, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina, sertralina, desvenlafaxina, duloxetina, milnaciprana e venlafaxina.
- MHRA, Antidepressants: use and safety (em inglês). GOV.UK, atualizado em 15 de outubro de 2026. Seção 3, nota de rodapé 2: dos medicamentos da revisão de 2019, oito são autorizados no Reino Unido (duloxetina, venlafaxina, citalopram, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina e sertralina).
- Bula do Lustral (sertralina) para o profissional de saúde, Reino Unido (em inglês). Viatris. Seção 4.4, disfunção sexual.
- Serretti e Chiesa, 2009 (em inglês). Metanálise de problemas sexuais durante o tratamento com antidepressivos, com estudos que perguntaram diretamente. J Clin Psychopharmacol.
- Reichenpfader e colaboradores, 2014 (em inglês). Revisão sistemática e metanálise em rede de 63 estudos. Força geral das evidências classificada como baixa. Drug Safety.
- Bula americana do Trintellix (vortioxetina) (em inglês). Seção 6.1. Homens com 20 mg: 5% contra 2% com placebo quando relatado espontaneamente (ensaios de 6 a 8 semanas); 29% contra 14% no questionário ASEX.
- Montejo e colaboradores, 2001 (em inglês). 1.022 pacientes ambulatoriais na Espanha, com perguntas diretas, de 1995 a 2000. No total, 59% passaram a ter um problema sexual. J Clin Psychiatry.
- Tarchi e colaboradores, 2023 (em inglês). Revisão sistemática de problemas sexuais depois de parar os ISRS. Nenhuma estimativa confiável de frequência. Pharmacoepidemiology and Drug Safety.
- Healy e colaboradores, 2022 (em inglês). Critérios diagnósticos para disfunção sexual persistente depois de antidepressivos, finasterida e isotretinoína. Int J Risk Saf Med.
- Diretriz NG222 do NICE (em inglês). Depression in adults: treatment and management, 2022. Recomendações 1.4.10 e 1.8.3.
- Cornelia, entrevistada pela Moral Medicine (em inglês). YouTube, 20 de novembro de 2024.
- What is the Yellow Card Scheme? (em inglês). NHS Black Country Integrated Care Board, YouTube, 4 de novembro de 2021.
Todas as citações foram traduzidas do inglês.
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