‹Todos os artigosApoio na PSSD

Antidepressivo pode anestesiar o amor?

Pesquisadores investigam se os ISRS embotam o amor romântico. As evidências divergem, e há quem diga que a perda continuou após parar, como parte da PSSD.

O SIDEfxHUB é uma organização beneficente de pacientes. Não somos profissionais de saúde, e isto não substitui orientação médica. Não comece, pare nem mude nenhum remédio por causa do que você leu aqui. Converse antes com seu médico ou sua médica.

Se você está passando por um momento difícil:188 CVV (gratuito, 24 horas)Chat do CVV em cvv.org.brEncontrar uma linha de apoio no seu país

Por Morten SkovPublicado
Antidepressivo pode anestesiar o amor?

Há cerca de 20 anos, pesquisadores se perguntam se os antidepressivos ISRS (inibidores seletivos da recaptação de serotonina) podem embotar o amor romântico, e os poucos estudos que existem não chegam a um acordo. Algumas pessoas contam que os sentimentos pelo parceiro ou pela parceira, ou a capacidade de se apaixonar, continuaram apagados depois que pararam o remédio, junto com outros sintomas da disfunção sexual pós-ISRS (PSSD).

Quando os sentimentos por alguém que você ama somem, é fácil culpar o relacionamento. Se o remédio tiver alguma participação, vale saber disso antes de terminar.

A história em 3 linhas

  1. Em 2007, uma pesquisadora e um pesquisador americanos propuseram uma hipótese: antidepressivos que aumentam a serotonina podem enfraquecer o amor romântico (capítulo, em inglês).
  2. Os dois estudos feitos desde então discordam, e o maior só ouviu pessoas apaixonadas (pesquisa de 2025, em inglês).
  3. Os critérios de 2022 para a PSSD incluem a anestesia emocional entre os sintomas que podem continuar depois de parar. Não encontramos nenhum estudo sobre com que frequência ela afeta os sentimentos românticos (busca no PubMed, outubro de 2026; critérios, em inglês).

Imprensa: contact@sidefxhub.com

Katie, em entrevista à Moral Medicine, maio de 2026, 10 minutos, em inglês.

Antes do Prozac (fluoxetina), conta Katie, ela “vivia o romance e outras emoções com facilidade”. Ela tomou o remédio por cerca de três anos, a partir dos 21.

Depois, ela percebeu que não tinha mais nenhuma paixonite. “Tentei ter relacionamentos várias vezes depois de adulta”, ela diz, “mas não dá certo por causa da PSSD.” Ela convive com isso há cerca de 14 anos.

Antidepressivo pode acabar com a paixão?

A questão não está resolvida. A ideia começou como uma hipótese. Num capítulo de livro de 2007, a antropóloga Helen Fisher e o psiquiatra J. Anderson Thomson propuseram que quem toma esses remédios “pode pôr em risco não só o desejo sexual”, mas também o amor romântico e o apego ao parceiro ou à parceira. Eles apresentaram a ideia pela primeira vez num congresso de psiquiatria em 2004.

O raciocínio deles partia de pesquisas sobre o cérebro. A paixão está ligada à dopamina, a substância química da recompensa no cérebro, escreveram. Aumentar a serotonina, que é o que os ISRS fazem, pode frear a dopamina. Por isso, argumentaram, um remédio que diminui o desejo sexual também pode silenciar o amor.

Eles deram exemplos. Uma estudante que tomava um ISRS disse: “Não estou mais tão apaixonada pelo meu namorado.” A dose dela tinha acabado de ser aumentada. Um homem escreveu a um jornal que seus sentimentos românticos pela esposa tinham caído bruscamente com o remédio.

Nos casos em que o remédio foi suspenso ou trocado, os sentimentos voltaram. O capítulo não menciona ninguém cujos sentimentos tenham continuado apagados depois de parar.

Alguém já testou se os ISRS diminuem o amor?

Dois estudos investigaram a questão, e eles apontam em direções diferentes. Um estudo de 2014 em Pisa (em inglês) perguntou sobre sexo, apego e amor a 192 pessoas que tomavam um ISRS ou um antidepressivo tricíclico havia pelo menos seis meses. Os autores observaram que os ISRS afetavam os sentimentos de amor e apego pelo parceiro ou pela parceira, principalmente nos homens.

Uma pesquisa de 2025 (em inglês) com jovens adultos não encontrou nenhuma relação. Quem tomava um ISRS relatou um amor de intensidade parecida com a de quem não tomava.

A pesquisa tem um porém. Como diz o próprio título do artigo, todas as pessoas que participaram estavam apaixonadas naquele momento. Quem tinha perdido esse sentimento não fazia parte da amostra.

ISRS e amor romântico: o que a pesquisa mostrou até agora

2007
Uma hipóteseFisher e Thomson propõem que os ISRS podem enfraquecer o amor e o apego.
2014
Um estudo em PisaSentimentos de amor e apego afetados com os ISRS, principalmente nos homens.
2022
Critérios da PSSDA anestesia emocional aparece entre os sintomas que podem durar depois de parar.
2025
Uma pesquisa com jovens apaixonadosNenhuma relação encontrada, mas só participaram pessoas que ainda estavam apaixonadas.
Fontes: Fisher e Thomson, 2007; Marazziti e colegas, 2014; Healy e colegas, 2022; Bode e colegas, 2025.

A perda dos sentimentos românticos pode durar depois de parar?

Nos exemplos de Fisher e Thomson, as pessoas que pararam ou trocaram o remédio recuperaram os sentimentos. Para algumas pessoas com PSSD, como Katie, a perda já durou anos depois de parar. Ninguém sabe ainda com quem isso vai acontecer, nem se vai melhorar.

A bula britânica da sertralina (em inglês) diz que os problemas sexuais, em alguns casos, “continuaram após a interrupção do tratamento”. Os critérios de 2022 para a PSSD (em inglês) acrescentam a anestesia emocional aos sintomas que podem acompanhá-la. Eles dizem que a anestesia emocional e a genital costumam andar juntas.

Nick fala do embotamento emocional depois dos ISRS e do apoio da namorada. Em entrevista à Moral Medicine, maio de 2023, 30 minutos, em inglês. O vídeo menciona o suicídio uma vez. Se você está passando por um momento difícil: o CVV atende no telefone 188, ligação gratuita, 24 horas por dia, e no chat em cvv.org.br.

Nick, cuja namorada ficou ao lado dele, diz que ainda consegue mostrar emoções no rosto. “Mas eu não sinto”, ele diz. Victoria, que tomou Lexapro (escitalopram) por cerca de duas semanas e depois trazodona, inclui “nenhum sentimento romântico, nenhuma atração” entre os sintomas que tem hoje.

O que eu posso fazer?

Esses remédios ajudam muita gente. Se você tem efeitos colaterais, a decisão é sua e de quem receitou o remédio. Não pare de uma vez.

Se os seus sentimentos pelo parceiro ou pela parceira diminuíram desde que você começou um remédio, ou não voltaram desde que você parou, diga isso na próxima consulta. Use suas próprias palavras, como “eu amo ela, mas não consigo sentir”. Informe as datas: “Sertralina 50 mg desde janeiro de 2023, último comprimido em março de 2024.”

Se você está num relacionamento, contar para a outra pessoa o que mudou pode evitar que ela entenda isso como um veredito sobre ela.

Notifique: isso ajuda todo mundo

O que fica anotado no seu prontuário ajuda você. Uma notificação à agência reguladora de medicamentos ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões são percebidos.

  • Não precisa comprovar nada. Basta suspeitar, mesmo anos depois de parar.
  • Onde: no Brasil, à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), pelo VigiMed; no Reino Unido, pelo sistema Yellow Card (em inglês); nos EUA, pelo MedWatch (em inglês).
  • Use as palavras certas. Se os sintomas continuaram depois de parar, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction, MedDRA 10086208).

Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer

O que mais as pessoas perguntam?

Os ISRS sempre afetam o amor? Não. Na pesquisa de 2025, jovens adultos que tomavam ISRS e estavam apaixonados relataram um amor tão intenso quanto o dos outros, ou quase. Fisher e Thomson também escreveram que esses remédios podem ajudar com problemas que desgastam os relacionamentos.

Pode ser a depressão? Pode. A depressão pode tirar o calor de um relacionamento, e sentir as emoções apagadas enquanto toma os comprimidos, o chamado embotamento emocional, é um efeito colateral conhecido. O momento em que começou é uma pista: Katie conta que, mesmo no pior momento antes do Prozac, ela “ainda tinha sentimentos”. Veja PSSD ou depressão?

É só falta de desejo sexual? Nem sempre. Desejo sexual, se apaixonar e sentir apego por um parceiro ou uma parceira de longa data são coisas diferentes, embora se misturem. Katie conta que perdeu várias delas ao mesmo tempo. Nosso artigo sobre falta de libido depois de parar os antidepressivos trata do lado sexual.

Katie conta que se lembra de como é ter sentimentos sexuais, mas não consegue mais alcançá-los. Leia a história dela e o que se sabe sobre a PSSD.

Fontes

  1. Fisher HE, Thomson JA Jr. Lust, romance, attachment: do the side effects of serotonin-enhancing antidepressants jeopardize romantic love, marriage, and fertility? (em inglês). Capítulo 10 de: Platek SM, Keenan JP, Shackelford TK (orgs.). Evolutionary Cognitive Neuroscience. Cambridge (Massachusetts): MIT Press, 2007: 245-283. Os autores apresentaram a ideia pela primeira vez no congresso anual da American Psychiatric Association, em maio de 2004. Os relatos de casos (p. 257, 258 e 267-268) incluem uma carta ao New York Times (Frankel, 2004). O capítulo também observa que, em algumas circunstâncias, esses remédios podem fortalecer o apego (p. 262).
  2. Marazziti D, Akiskal HS, Udo M, et al. Dimorphic changes of some features of loving relationships during long-term use of antidepressants in depressed outpatients (em inglês). Journal of Affective Disorders, 2014; 166: 151-155. 192 pacientes ambulatoriais com depressão leve ou moderada, em uso de um único antidepressivo (um ISRS ou um tricíclico) havia pelo menos seis meses e num relacionamento; questionário “Sex, Attachment, Love” (sexo, apego, amor).
  3. Bode A, Kowal M, Cannas Aghedu F, Kavanagh PS. SSRI use is not associated with the intensity of romantic love, obsessive thinking about a loved one, commitment, or sexual frequency in a sample of young adults experiencing romantic love (em inglês). Journal of Affective Disorders, 2025; 375: 472-477. 810 jovens adultos da Romantic Love Survey 2022, todos apaixonados naquele momento. Descrito aqui apenas a partir do título e do resumo; não conseguimos abrir o texto completo.
  4. Healy D, Bahrick A, Bak M, et al. Diagnostic criteria for enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, finasteride and isotretinoin (em inglês). International Journal of Risk & Safety in Medicine, 2022; 33(1): 65-76. A anestesia emocional aparece como sintoma não sexual auxiliar.
  5. Lustral (sertralina), bula para o paciente (em inglês), Electronic Medicines Compendium, revisada pela última vez em dezembro de 2025. Seção 2, “Sexual problems” (problemas sexuais).
  6. Termo MedDRA Post-SSRI sexual dysfunction (no Brasil, Disfunção sexual pós-ISRS), código 10086208.
  7. Entrevistas da Moral Medicine no YouTube: Katie (em inglês), maio de 2026, e Nick (em inglês), 30 de maio de 2023. As palavras de Victoria vêm da entrevista dela à Moral Medicine, na página da história dela.

Todas as citações foram traduzidas do inglês.

Isto não substitui orientação médica. Converse com seu médico ou sua médica antes de tomar decisões sobre o tratamento.

Registro SIDEfxHUB

620+ pessoas já estão no registro.
Cadastre-se você também e depois notifique seus efeitos colaterais.

Gratuito. O cadastro leva 2 minutos.

Ao vivo 620+ pessoas contadas até agora Cada ponto é uma pessoa 62países 3doenças