Antidepressivos e sexo: os efeitos podem durar?
Antidepressivos costumam diminuir o desejo sexual ou dificultar o orgasmo e a ereção. O NHS britânico alerta que isso pode durar após parar: é a PSSD.
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Os antidepressivos costumam causar problemas sexuais, como desejo sexual baixo, dificuldade para chegar ao orgasmo, ressecamento vaginal ou problemas de ereção. O NHS (em inglês), o serviço público de saúde britânico, alerta que eles podem continuar depois que a pessoa para de tomar o remédio; quando duram, o quadro se chama disfunção sexual pós-ISRS (PSSD).
O sintoma central da PSSD, a dormência genital, nem aparece na lista do NHS. E, num estudo, a maioria das pessoas com problemas sexuais só falou deles quando perguntaram na consulta.
A história em três linhas
- Os problemas sexuais com antidepressivos são comuns, mas, num estudo, a maioria das pessoas só falou deles quando perguntaram na consulta (estudo, em inglês).
- O NHS alerta que eles podem continuar depois de parar o remédio (NHS, em inglês).
- Ninguém mediu com que frequência isso acontece. Quando os problemas duram, o nome é PSSD, e o sinal central é uma mudança na sensibilidade genital (critérios, em inglês).
Imprensa: contact@sidefxhub.com
Emily parou de tomar um ISRS rapidamente, por orientação médica. Cerca de três semanas depois, acordou e percebeu que toda a sensibilidade sexual tinha sumido.
Mais de um ano depois, a sensibilidade não tinha voltado, e nenhum profissional que ela consultou soube explicar por quê. Até tocar no assunto era difícil. Ela diz que é “algo tão constrangedor de abordar”.
Que problemas sexuais os antidepressivos podem causar?
Eles podem afetar cada fase da resposta sexual: o desejo, a excitação, o orgasmo e, nos homens, a ejaculação. A bula britânica da sertralina (em inglês) lista a incapacidade de ejacular como muito comum, e a queda do interesse sexual e a disfunção erétil como comuns.
As pessoas afetadas descrevem outras duas mudanças. O orgasmo pode até acontecer, mas trazer pouco prazer. E os genitais podem ficar dormentes, como se estivessem anestesiados.
O grupo de especialistas que escreveu os critérios diagnósticos de 2022 (em inglês) para a PSSD explica assim: o toque nos genitais pode parecer igual ao toque em qualquer outra parte do corpo.
Num vídeo da Mayo Clinic, a psicóloga e terapeuta sexual Jordan Rullo explica, em menos de um minuto, como esses remédios afetam as mulheres.
Por que tão poucas pessoas falam sobre isso?
Muitas vezes, porque ninguém pergunta. Num estudo espanhol (em inglês) com pessoas que tomavam ISRS, menos de 2 em cada 10 falaram por conta própria de algum problema sexual. Quando a equipe médica fez perguntas diretas a essas mesmas pessoas, quase 6 em cada 10 tinham algum.
A vergonha é um dos motivos, segundo os pesquisadores David Healy e Dee Mangin (em inglês). As pessoas também usam palavras diferentes: os homens às vezes falam em disfunção erétil, enquanto as mulheres costumam descrever perda de libido. E uma mudança na sensibilidade genital, ou no jeito como o orgasmo é sentido, nem sempre aparece na conversa se ninguém pergunta diretamente.
Tem gente que nem liga isso aos comprimidos. Katie começou a tomar fluoxetina aos 21 anos. Só percebeu que o remédio estava por trás dos sintomas mais de dez anos depois, e passou anos achando que havia algo errado com ela.
Os problemas sexuais podem durar depois de parar o antidepressivo?
Sim, para algumas pessoas. Em 2019, a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) pediu um alerta (em inglês) na bula de todos os antidepressivos ISRS e IRSN. A bula britânica da sertralina agora diz: “Em alguns casos, esses sintomas continuaram após a interrupção do tratamento.”
Quem convive com o problema e quem o estuda chama isso de PSSD. Em algumas pessoas, os sintomas só começam depois do último comprimido, como aconteceu com a dormência de Emily.
Os critérios de 2022 exigem uma mudança duradoura na sensibilidade genital. Os autores esperam que algum efeito persista por dias ou semanas. Se os problemas continuam três meses depois de parar o remédio, a PSSD é mais provável.
Ninguém mediu com que frequência isso acontece. Dois questionários usados em pesquisas nem perguntam sobre a sensibilidade genital, apontam Healy e Mangin.
O psiquiatra Jonathan Alpert disse ao PolitiFact (em inglês) que as pesquisas são “escassas e de qualidade variável”. Outro psiquiatra, Michael Ziffra, afirmou que, pela experiência dele, os efeitos colaterais passam para a maioria das pessoas poucas semanas ou meses depois de parar.
Para algumas pessoas, isso durou anos depois de parar. Ainda não se sabe em quem isso vai acontecer, nem se vai melhorar.
Depois do último comprimido: quando os problemas que duram apontam para a PSSD
O que eu posso fazer?
Esses remédios ajudam muita gente. Se você tem efeitos colaterais, essa é uma decisão sua e de quem receitou o remédio. Não pare de uma vez.
Fale de qualquer mudança, por mais constrangedora que seja, e diga exatamente qual é o sintoma. Se você já parou e o problema não passou, marque uma consulta com um clínico geral, no SUS ou pelo plano de saúde, e mostre a frase da bula britânica sobre sintomas que continuam depois de parar.
Antes da consulta, anote estas cinco coisas:
“Sertralina 50 mg desde janeiro de 2023, último comprimido em março de 2024.”
“Sinto dormência ao toque”, “orgasmo sem prazer”.
Antes, durante o uso ou depois de parar.
“Nenhum problema antes de 2023.”
Outros remédios, anticoncepcionais, álcool, diabetes, menopausa.
Muitas pessoas contam que demoraram a ser levadas a sério. Você pode notificar mesmo que nenhum profissional de saúde concorde.
Notifique: isso ajuda todo mundo
Ter isso registrado no seu prontuário ajuda você. Uma notificação à agência reguladora ajuda todas as outras pessoas: é assim que os padrões são percebidos.
- Não é preciso comprovar nada. Basta uma suspeita, mesmo anos depois de parar.
- Onde: no Brasil, o VigiMed, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa); no Reino Unido, o sistema Yellow Card (em inglês); nos EUA, o MedWatch (em inglês).
- Use as palavras certas. Se os sintomas continuaram depois de parar, escreva Disfunção sexual pós-ISRS (Post-SSRI sexual dysfunction) (MedDRA 10086208).
Nosso guia para notificar efeitos colaterais mostra como fazer
O que mais as pessoas perguntam?
Pode ser a depressão? A própria depressão muitas vezes diminui o desejo sexual. Num estudo pequeno (em inglês) com pessoas com depressão que não tomavam antidepressivo, quase metade tinha menos interesse por sexo. A dormência genital é outra história: numa pesquisa (em inglês) com pessoas de um fórum sobre PSSD, ela não teve relação com as pontuações de depressão ou ansiedade.
Como saber se é PSSD? Os critérios de 2022 exigem uma mudança duradoura na sensibilidade genital depois de parar o remédio, descartadas outras causas. A recuperação parcial também conta: se o orgasmo volta, mas “a sensação já não é a mesma”, os autores ainda classificam o quadro como PSSD. Nosso guia sobre como a PSSD é diagnosticada explica melhor.
Isso também acontece com mulheres? Sim. Nos relatos de problemas duradouros (em inglês) enviados ao RxISK, um site sobre segurança de medicamentos, as mulheres descreveram os mesmos sintomas centrais que os homens, incluindo dormência genital e dificuldade para chegar ao orgasmo. Nossa página sobre PSSD em mulheres explica por que os sintomas delas podem passar despercebidos ou ser confundidos com libido baixa.
Emily falou diante da câmera sobre algo que, na opinião dela, muita gente guarda para si. Se o que ela conta parece familiar, anote o que mudou e quando, e leve essa lista a quem receitou o remédio.
Fontes
- NHS, Antidepressants (em inglês): efeitos colaterais comuns, entre eles problemas sexuais que “may carry on after stopping antidepressants”. Página revisada pela última vez em 12 de junho de 2025.
- Lustral (sertralina), bula britânica para pacientes (em inglês), seções 2 (“Sexual problems”) e 4, revisada pela última vez em dezembro de 2025. Electronic Medicines Compendium.
- European Medicines Agency, PRAC, recommendations on signals adopted at the 13-16 May 2019 meeting (em inglês), EMA/PRAC/265212/2019, seção 1.3: texto do alerta para seis ISRS (citalopram, escitalopram, fluoxetina, fluvoxamina, paroxetina, sertralina) e quatro IRSN (duloxetina, venlafaxina, desvenlafaxina, milnaciprana), adotado em 16 de maio de 2019.
- Montejo-González AL, Llorca G, Izquierdo JA e colegas. SSRI-induced sexual dysfunction: fluoxetine, paroxetine, sertraline, and fluvoxamine in a prospective, multicenter, and descriptive clinical study of 344 patients (em inglês). J Sex Marital Ther 1997;23(3):176-94. Pacientes ambulatoriais na Espanha com função sexual normal antes do tratamento; 14% relataram um problema sexual espontaneamente e 58% quando receberam perguntas diretas. Sem grupo placebo; o questionário era dos próprios autores.
- Healy D, Mangin D. Post-SSRI sexual dysfunction: barriers to quantifying incidence and prevalence (em inglês). Epidemiol Psychiatr Sci 2024;33:e40. Sobre como homens e mulheres descrevem o problema, a vergonha, e o fato de a Arizona Sexual Experience Scale e o Changes in Sexual Functioning Questionnaire não perguntarem sobre a sensibilidade genital.
- Healy D, Bahrick A, Bak M e colegas. Diagnostic criteria for enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, finasteride and isotretinoin (em inglês). Int J Risk Saf Med 2022;33(1):65-76. Um consenso de especialistas. Critérios necessários: tratamento prévio com um inibidor da recaptação de serotonina e uma mudança duradoura na sensibilidade genital depois de parar; é esperado que algo persista por dias ou semanas, e aos três meses a PSSD é mais provável.
- Healy D, Le Noury J, Mangin D. Enduring sexual dysfunction after treatment with antidepressants, 5α-reductase inhibitors and isotretinoin: 300 cases (em inglês). Int J Risk Saf Med 2018;29(3-4):125-134. Relatos enviados ao RxISK; entre 50 mulheres depois de um inibidor da recaptação de serotonina, 30 descreveram dormência genital e 30, dificuldade para chegar ao orgasmo. Uma contagem de descrições, não uma taxa.
- Kennedy SH, Dickens SE, Eisfeld BS, Bagby RM. Sexual dysfunction before antidepressant therapy in major depression (em inglês). J Affect Disord 1999;56(2-3):201-8. 134 pessoas com depressão maior, sem medicação: mais de 40% dos homens e 50% das mulheres relataram menos interesse sexual. Sem grupo de comparação de pessoas sem depressão.
- Ben-Sheetrit J, Aizenberg D, Csoka AB e colegas. Post-SSRI sexual dysfunction: clinical characterization and preliminary assessment of contributory factors and dose-response relationship (em inglês). J Clin Psychopharmacol 2015;35(3):273-8. Pesquisa online com participantes recrutados num fórum sobre PSSD; a anestesia genital não teve correlação com depressão nem com ansiedade.
- PolitiFact, What we know about sexual function after antidepressants (em inglês), 31 de julho de 2026, de Grace Abels. Dr. Jonathan Alpert (Albert Einstein College of Medicine), por e-mail: “The existing body of literature is small and of variable quality”. Dr. Michael Ziffra (Northwestern University), nas palavras do PolitiFact: os efeitos colaterais sexuais desaparecem para a maioria das pessoas semanas ou meses depois de parar, com base na experiência clínica dele.
- MHRA, Suspect you have experienced a side effect or incident from a healthcare product? (em inglês), 6 de novembro de 2023: “You don’t have to prove”, ou seja, você não precisa provar que o remédio causou o problema.
- Vídeos: PSSD Canada, Emily’s experience with PSSD (em inglês), 27 de fevereiro de 2022; Mayo Clinic, Dr. Jordan Rullo discusses antidepressants and sexual dysfunction (em inglês), 5 de outubro de 2016; Moral Medicine, I Lost My Sexual Identity After Prozac (em inglês), 26 de maio de 2026.
Todas as citações foram traduzidas do inglês.
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